segunda-feira, 22 de maio de 2023

Solidão - Capítulo 6 : Bresso


A cidade estava um tanto movimentada. Um sino repicou mais adiante. Ele sabia de onde vinha, embora não avistasse ainda o local. O sino prosseguiu repicando enquanto Arlequin testemunhava um fluxo cada vez maior de pessoas se arrastarem na mesma direção. Isso confirmava sua suspeita de que provavelmente uma missa seria celebrada em pouco tempo.

Não importava, porém. Não fazia diferença. Fazia? Ele não pode conter o impulso de elevar seu olhar contra as nuvens cinzentas daquele dia. Seus olhos, no entanto, não queriam apenas fitar o céu. Eles procuravam uma resposta.

Tal resposta, ao menos naquele instante, não veio.

Arlequin avistou mesas dispostas em frente a um prédio simples, mas de aparência reconfortante. Possuía dois andares e um toldo cor vinho se debruçava sobre as cadeiras antes mencionadas. O local não parecia apenas um restaurante, mas um hotel. Isto fez com que logo quisesse parar, pensar e decidir passar a noite ali.

O restaurante, conforme Arlequin se aproximou, revelou ter como especialidade “massas”. Curioso, mas isso não era um detalhe que fosse relevante quanto sua permanência ou partida. Logo ele conseguiu um quarto para si, sentindo certa urgência em tomar um banho e se livrar da maquiagem e roupas. Deveria tê-lo feito antes, mas não conseguira. Esperava fazê-lo agora – bastava a forma como o olharam quando adentrou o restaurante que, apesar de simples, ainda conseguia ser requintado, boa parte da mobília sendo feita de mogno reluzente.

Ignorou os olhares, entretanto.

Já no quarto lhe cedido ele percebeu que não tinha mais tanta urgência em procurar um chuveiro. Ao invés disso ele quis aproveitar algo que o quarto lhe fornecia: havia uma singela sacada dando para a rua por onde viera e por onde as pessoas prosseguiam sua romagem. Havia uma amurada sobre a qual se debruçou, apoiado nos cotovelos, enquanto seus olhos acompanhavam as pessoas passando e, pouco depois, ele percebeu que podia avistar, dali, a tal igreja. Era uma capela, apesar de robusta. Sua formação não sugeria uma nave trabalhada como em catedrais, mas uma rosácea gótica demarcava a fronte, esta encimada pela costumeira torre pontiaguda, qual, sobre o telhado cônico, abrigava o sino, cujas badaladas ecoavam, eminentes.

Arlequin, voltando sua atenção para as pessoas transitando pouco abaixo, notou que algumas o olhavam com estranheza. Estranheza virou assombro quando ele sacou seu maço de cigarros e de lá tirou um – o último – e o acendeu. A fumaça lhe encheu os pulmões e depois se encontrou com a brisa fria, sendo levada para a direção da qual ele viera pouco tempo atrás enquanto ele via expressões horrorizadas de algumas pessoas, homens, mulheres ou crianças. Ele entendia o assombro. Ele era um palhaço afinal. O que ele esperava?

Ele possuía uma resposta: esperava que fosse visto como mais do que isso.

Ele suspirou, pronto a levar o cigarro outra vez aos lábios, mas estacou antes que isso acontecesse. Lá embaixo ele a viu. Quanto tempo fazia? Aqueles cabelos negros demais lhe caindo sobre os ombros em uma cascata escura, mas reluzente como obsidiana. As vestes eram claras. Alvas. Ela não o vira. Ele não esperava que ela o fizesse. Ainda assim sentiu que estremecia, sentia que as palavras em seu interior, se é que isto era possível, falhavam. Apesar do tempo, dos anos, as palavras ainda estavam lá, repletas de esperança, mas também de medo.

Lembrou-se de anos atrás, quando aquele belo resto emoldurado em fios escuros estava diante dele, olhos também negros que o fitavam com afinco, quase capazes de lhe perfurar a alma. Ela viera a ele dizer que talvez não fosse certo prosseguirem... Não fora o dia mais sombrio de sua vida, mas via-se, desde então, sem amor, vazio e enfermo. Parecia sangrar continua e copiosamente. Exausto.

— Mas — ele se lembrava de ter dito — seu amor ainda corre em minhas veias, ainda me aquece. Me mantem vivo. Eu sei que posso ter estado distante, mas não estou morto. Não estou...

— Pierrot... — ela começara, mas a memória se fora em um instante, como a fumaça de seu cigarro minutos atrás. Arlequin se viu, então, desperto, mas a bela já se afastava, a multidão começando a minguar e a noite a cair, suas sombras agora caindo mais espeças. Ao longe Arlequin viu relâmpagos, trovões poucos segundos depois.

Tragou do cigarro mais uma vez, o calor da brasa já lhe lambendo os dedos. Suspirou, assistindo a fumaça partir e as memórias tentando voltar. Anos haviam se passado e a voz dela ainda era tão vívida, o toque de seus lábios ainda tão presentes. Ele sabia quantas trevas havia em si, mas naqueles dias ela era a luz que amenizava a presença da penumbra. Era tolo, mas ele ainda a amava...

Ele deveria? Talvez não. Provavelmente não. Deveria apenas prosseguir. Ainda assim havia nele o desejo de conhecê-la melhor, visto que sentia que não havia feito isso como deveria. Queria conhecer sua essência e chafurdar nas vagas desta; se perder nas águas do mar que ela era. Em toda a sua beleza, todo seu brilho...

— Este é seu castigo, meu caro — ele disse para si, tentando soar conformado. — Seu castigo: ter o mais belo tesouro deste mundo e não poder tocá-lo. Ela está logo ali, mas... onde ela está?

Há quem diga que tal pergunta não faça sentido, mas não há quem diga que é impossível ser só na multidão.

O cigarro em seguida se apagou, as cinzas caíram sobre o toldo e foram levadas pelo vento que ganhava força. Se apagou, seu calor definhou assim como a esperança de Arlequin – lhe escapando por entre os dedos feito areia. E, então, indo-se a esperança, permanece o desespero.

Permanece o pandemônio em calma alma. Calma, mas onde os sentimentos são perturbadoramente ruidosos. Há o amor, mas mentiras se entrelaçam a palavras de afeto. O relógio da vida, um cacofônico pêndulo, muda, permanecendo as mesmas malditas memórias. E, apesar de tudo isso...

— Eu ainda a amo — ele concluiu ao sentir os primeiros flocos de neve recomeçarem a cair. Frios. Tão frios. — Temo as falhas. Há este medo, mas ele parece incapaz de extinguir a saudade.

Arlequin, por fim, decidiu pelo banho, a exaustão e a angustia se abatendo sobre ele. Lá, enquanto a água o lavava, ela escorria em tons esbranquiçados, também em cinza e preto, o ralo engolindo o palhaço em si.

Cerca de trinta minutos depois Pierrot descia para o restaurante. Olhos o fitaram, mas como se não o tivessem visto antes. De fato não o haviam visto, de certa forma. Haviam avistado um palhaço em vestes quadriculadas em preto e branco, trazendo duas malas consigo. Agora viam um rapaz que calçava sapatos pretos, suas calças sendo da mesma cor, um belo paletó escuro – sobre uma camiseta mais clara – embora não preto ou requintado, lhe protegeria braços e peito da friagem da noite que prometia trazer mais neve. Os cabelos pretos fartos ondulavam graciosa e naturalmente. Longos, mas longe de chegarem aos ombros, adornavam as expressões do rosto jovem, mas melancólico do rapaz.

Pierrot ignorou os olhares e procurou um lugar e lá se sentou. Escolhera uma mesa com quatro lugares à beira da janela, de onde ele podia ver a neve continuar a cobrir as ruas.

— O que vai querer, jovem senhor?

Pierrot se virou de súbito, sobressaltado com a recém chegada presença do garçom; um homem que parecia estar chegando aos seus quarenta anos. A vestimenta era simples, mas elegante, se tratando de caças pretas e uma camisa social branca. Vestes leves permitida pela presença certa de um aquecedor no local.

O homem não repetiu a pergunta. Pierrot, então, agarrou o Menu que apenas agora notou ante ele e o folheou. A presença do garçom logo tornou-se incômoda, deixando o jovem nervoso – nervoso o bastante para que se visse incapaz de escolher.

— Me sugere algo?

— Temos, especificamente hoje, um macarrão que ficaria ótimo se acompanhado de uma taça de vinho — disse o homem. — O senhor também poderia escolher algo para a noite que prossegue esfriando, como uma sopa de legumes...

De tudo o que o homem sugerira o que saltou em sua mente foram as palavras “taça de vinho”. Isso fez com que ele optasse pelo macarrão, ainda que a sopa tivesse lhe soado atraente.

O homem saiu. Pouco depois um rapaz – pouco mais jovem que o próprio Pierrot – se aproximou com uma travessa prateada reluzindo, logo depositando uma travessa menor com várias torradas. Um leve aperitivo. Pouco depois depositou um recipiente menor, ainda lacrado, onde Pierrot pôde ler o nome “Bresso”.

Ele franziu o cenho, cético, enquanto uma torrente de lembranças lhe vinha à mente. Ele não quis dar espaço a elas. Buscou agir como se elas não estivessem lá, à espreita. Sem pensar demais ele alcançou o queijo, rompeu o lacre, o destampou. O cheiro lhe chegou inevitável – fazendo sua boca salivar e seus olhos marejarem – enquanto ele também alcançava uma das torradas e com uma espátula que descobrira junto da travessa passou o queijo nessa e comeu.

Era delicioso, como lembrava que era. Porém, ele não foi capaz de não sentir também um gosto levemente salgado no canto dos lábios, constatando que uma solitária lágrima conseguira escapar de seu controle. Em um mero instante estivera absorto e ela lhe escapara. Mas quão absorto alguém deveria estar a ponto de que lágrimas não sejam notadas? Ele não tinha uma resposta. Tudo o que lhe acometia era colheita de semeaduras passadas. Isso, ao invés de uma resposta, lhe trazia outra pergunta: ele seria capaz de dizer adeus à tudo aquilo – fosse bom ou ruim – que havia o transformado em quem ele atualmente era?

Pierrot suspirou, a garganta desejando trancar enquanto ele decidia não se render ao pranto; enquanto ele sondava seu interior em busca da resposta que ele sabia que deveria encontrar, mas, até então, não conseguia fazê-lo.

Alcançou mais uma torrada. Repetiu o processo enquanto aguardava o prato principal. A pequena e ressequida fatia de pão somada ao queijo formavam algo ótimo, claro. Todavia, infelizmente, aquela acabara sendo a refeição mais triste, e mesmo mais amarga, que já tivera.

Felipe R.R. Porto

terça-feira, 9 de maio de 2023

Solidão - Capítulo 5 : Canção Em Louvor À Indiferença

É dito que o ser humano é uma espécie intrinsicamente social, mas e quando isso falha? E quando a necessidade de se associar parece minguar e associar-se soa como se para salvar-se de cair em um abismo fosse preciso agarrar-se, não a uma corda, mas a longos ramos espinhosos? Às vezes soa melhor cair.

        Na distancia Arlequim já avistava a pequena cidade. Ele agora cruzava um pequeno arvoredo. Árvores de copas fartas timidamente quase tocavam-se e formavam um túnel que, devido ao tempo nublado, era estranhamente escuro para aquele horário. A noite ainda demoraria um pouco para chegar, no entanto.

Arlequin parou nas sombras, pensando em prosseguir ou não. “Cá estou”, pensou. “Um ser social, mas não criado pela sociedade ou para ela...” A conclusão era que, o mais claro, era que o precioso sentimento de socializar já havia partido logo cedo. A solidão o fizera quem era. Ela o criara, em verdade. Dela ele nascera. Houve momentos onde ele tentou abandonar isso, este sentimento, e ir em direção oposta àquilo que parecia ser natural a ele. Ele tentou escapar da solidão... e neste trajeto ele viu que perdia também a esperança que uma vez tivera. Na verdade isto era conclusivo, visto que a esperança é uma luz brilhando em meio a densas trevas e não o inverso. Pessoas não sentem veementemente a coragem quando não há ameaças, mas quando estas existem. Do mesmo modo a esperança opera, sendo um farol em meio a um tempestuoso mar.

A esperança se fora, deixando um sentimento de frieza. Arlequin sentia-se clamando por algum calor. Algum amor? A voz que pedia isto logo se silenciava dentro dele, deixando-o apenas com um estranho sentimento de que era vão, era tolice, esperar por isso. Seria mesmo?

Lembrava-se de sonhos, mas mesmo os sonhos, tão imersos em realidade e em verdade, tornavam-se pesadelos e lá, nos sonhos, ele fugia. Contudo, em algum determinado momento, de forma eminente, sempre vinha a queda. Feito sombria nuvem maus presságios pairavam sobre ele, enquanto por dentro o que ele encontrava era o vazio. Não havia nada dentro daquela jovem, embora sofrida, casca humana. Não havia vida e o infortúnio lhe segurava firme a mão, não lhe deixando seguir sozinho...

Arlequin sentiu o cansaço se abater sobre ele. O desanimo o fez recostar-se em uma árvore. Pouco depois uma charrete ruidosa passava por ali, rumo à cidade. Um homem, sua esposa e duas crianças (uma menina e um menino), provavelmente seus filhos puxados por dois cavalos de pelo escuro. Apenas as crianças, com seus doze anos talvez (a menina parecendo ser a mais velha), o viram, mas apenas o viram, sem manifestar-se a sua mãe ou a seu pai, este último mantinha-se centrado e  agarrava firme as rédeas. Logo o som do leve trotar não chegava mais aos ouvidos do exausto jovem à sombra do arvoredo.

O coração de Arlequin pulsava forte, ansioso. Não, havia medo, uma gélida e persistente teia de medo na qual ele se via emaranhado. Lamentou, então, as palavras das quais há pouco se lembrara, as promessas que fizera.

— Mal consigo existir — ele lamentou audivelmente — , que dirá prosseguir?  O que há para mim é apenas a indiferença, o viver na morte do esquecimento. Sou apenas um uma criatura do tédio, aquela péssima piada em uma sala de espera... Aquele que ninguém quer ouvir ou que ninguém estará lá para ouvir...

É sabido que os românticos são os mais sofredores sobre esse mundo. Tão sensíveis e sonhadores; sonhando seus belos sonhos inflados em amor. Ai destes, pois o lugar deles – ou de maioria deles – é no passado. Muitos já se foram e jazem em tumbas frias e sua poesia é lida por poucos em páginas lúgubres ou em suas lápides mais fúnebres ainda.

O mundo não estava pronto para eles, por isso a vida, a jovialidade, deles fugia, visto que seus olhos não mais viam aquilo que os demais passaram a ver. Eles reconheceriam a beleza de uma obra de arte, enquanto outros apenas as utilizariam como algo para embelezar seus cômodos cheios de riquezas, mas vazios de amor. “Pobre destes”, Arlequin pensava, mas algo não era mais tão inovador, “que apenas tem dinheiro”.

— Contudo — ele disse por fim, hesitante, voltando os olhos para cidadezinha à frente, não mais tão cativado em prosseguir — eis aqui um destes que tanto sonhou com o amor! Vejam! Contemple, respeitável público! — ele colocou um sorriso no rosto, um que ele sabia que convenceria a muitos, mas logo se viu deixando o sorriso morrer, seu semblante cair. — Eu busquei o amor. Sonhei com ele. O senti, mas como uma maldita e horrenda semente, o amor brotou e quando desabrochou... encontrei apenas medo. Apenas medo.

Felipe R.R. Porto

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Solidão - Capítulo 4 : Servo De Um Fantasma

Ainda sentado Arlequim alcança um pequeno compartimento ao lado de sua mala. Sua mão desaparece dentro deste, ele o remexe até encontrar o que procura. Segundos depois está com um cigarro nos lábios. Ele traga e suspira, a fumaça logo carregada pelo vento. Já se perguntara se aquilo, o habito de fumar, possuía para ele um sentido dúbio: o acalmava... e o matava. “Talvez”, pensou, sentindo alguma calma o tomar quando soltou a costumeira fumaça pela segunda vez.

Procurou ter a mente fria. Mantê-la calculista, ainda que ela relutasse. Se examinou e, como há pouco, constatara que estava perdido, servindo a duas vozes. Não sabia dizer se eram as vozes do passado e do presente, do passado e do futuro. Talvez não se tratasse de nenhuma das possibilidades. Talvez se tratasse de quem ele um dia fora e quem ele seria se fosse conivente com os padrões que o cercavam. Talvez. Ele sabia, porém, que haviam duas vozes lhe falando à consciência, lhe sussurrando aos ouvidos.

Talvez... tudo soava como um grande talvez. No entanto ele estava pronto. Ele ouvira alguém. Ou ninguém. Uma das vozes, no final, lhe será útil e verdadeira. Percebeu-se, neste instante, como sendo servo de um fantasma – de um espirito. Dependente dessa forma ou dessa deformidade. Alguém que, de qualquer forma, ele esperava que estivesse lá.

Havia a dor, mas ele buscava sobrepujá-la, estar acima desta, não permitindo que lhe ditasse as direções, não lhe ditasse também suas emoções. Já sofrera em demasia por isso.

Porém, ao mesmo tempo, para chegar a algum lugar – a algum lugar diferente – ele deveria correr o risco. Sem riscos, era bem sabido, não se chega a lugar algum. Não obstante, manter-se estagnado também se trata de um risco.

Mesmo, então, para batalhas, lutas que exigissem muito dele, ele estaria pronto para elas.

“Saque sua faca”, uma das vozes, no entanto, pareceu lhe dizer de forma desafiadora. “Fira sua alma e esteja preparado para ouvir seus gritos, beber do sangue a verter . Por fim, aproveite o momento!”

No entanto, ainda que essa decisão lhe tivesse acometido, seus olhos o obrigaram a notar algo: ele estava sozinho. Completamente sozinho. Estes mesmos olhos pareceram feridos por isso. A persistência que foi a bandagem que ele utilizou sobre estes olhos a fim de que ele pudesse ao menos prosseguir.

Arlequim se lembrou de um de seus momentos no velho trailer que fora levado pelo circo e seria dado a outra pessoa. Lembrou-se de uma vez em que, antes de maquiar-se, fitou o espelho. É óbvio que ele vê a si mesmo neste. Entretanto, fora doloroso.

“Você não passa de uma prostituta para essa vida, não é?” Não demorou para que aquilo que lhe doesse. Ele se lembrava de ter varrido toda a maquiagem e apetrechos ligadas a essa para o chão – o mesmo chão no qual ele caiu ajoelhado e lágrimas lhe desciam pelo rosto destruindo o trabalho, ainda que pouco, que ele havia feito.

Ainda que vagarosamente, ele começava a entender o que acontecia. O que a vida era.

Ele recordou de ter se levantado. Fitara o espelho outra vez. Fitara a si mesmo outra vez. Era ele e ninguém saberia disso mais do que ele. Ainda que estivesse vestido com suas roupas para o espetáculo da noite que se avizinhava ele era capaz de se enxergar perfeitamente. Nu. Suas vergonhas, suas falhas, seus medos e dores, assim como suas virtudes. Estas últimas, para ele, eram quase questionáveis. Se apenas ele via sua honestidade, sua generosidade e sua fraternidade como virtudes, como saber se realmente o eram? Como ele definiria isso? Há um padrão? Algo que mostre a direção...?

Ele se desvencilhara desses pensamentos. Não precisava deles agora. Intentava se focar naquela noite e nela apenas...

... naquela noite onde ele revidara as vozes. 

— Me mostre sua carne — ele havia dito para a figura no espelho. Era ele, mas também não era. Era ele, mas também eram aquelas vozes... o estranho fantasma ao qual ele inconscientemente, ou às vezes conscientemente, servia. — Corte-a. Quanto a mim? Sim, violente essa alma, beba do néctar que ela verter e a fertilize. No entanto, saiba de algo: não posso me livrar de você... mas você também não pode se livrar de mim! — Arlequim baixou os olhos para as próprias mãos. Eram realmente dele? Voltou os olhos para o espelho e o olhar que recebia, que lançava, era firme. — Como você grita em minha mente eu gritarei dentro da sua. Vou estraçalhar esse seu maldito crânio de dentro para fora. Sua dor, seu ódio... eu vou senti-los. Suas feridas... eu as abrirei e farei com que sangrem novamente!

Eram promessas! Ou não eram? A quem? A si ou àquele que pensava não ser ele, ou quem desejava que não fosse ele...?

Ele continuou fitando o espelho. Fitando as formas da pessoa que lá enxergava. Era ele, e sentia que também não o era. Apesar das vozes existirem, elas eram apenas ele. Apenas ele, pois estava sozinho. Completamente sozinho. A não ser por si mesmo. Pois podia dizer ao reflexo que se fosse, que o deixasse em paz, mas isto não aconteceria. Qualquer pedido receberia um não, ainda que o tempo tivesse passado e o próprio Arlequim não tivesse cumprido com as ameaças que fizera.

A única verdade, até então, é que fora ele seu maior enganador. Fora ele próprio o Judas que o traíra. Ele se punira e acabou sangrando pelas escolhas que fez contra si mesmo. Contra si mesmo. No entanto, dentre as maiores verdades já ditas neste mundo uma que merece ser sempre lembrada é que cada um é o pior inimigo de si mesmo. No fim, talvez, todos queiram apenas se punir pelo sofrimento que infligiram a si próprios.

Seria um massacre sangrento e hediondo se as coisas fossem simples assim. Não são, todavia. Embora muitos queiram. Embora o próprio Arlequim quisesse isso em momentos.

Ali, mesmo sozinho, como naquela lembrança ele se levantou. O cigarro, qual ele mal fumara, acabara se consumindo e as cinzas precisavam apenas do costumeiro “peteleco” para caírem. Precisava continuar. 

Logo nevaria.

Felipe R.R. Porto

terça-feira, 18 de abril de 2023

Solidão - Capítulo 3 : Solidão

O sol havia brilhado aquela manhã, mas não fora por muito tempo. No dia anterior uma tempestade ameaçara castigar as redondezas. Somente ameaçara, pois a noite veio, adentrou-se a madrugada e rompeu a alvorada sem que gota alguma tocasse os trailers, barracas, tendas ou jaulas do local onde o circo estivera nas últimas semanas. O céu, mais do que no dia anterior, trazia em suas nuvens uma tonalidade chumbo. Frias nuvens. Obviamente também frio era o vento que soprava.

Talvez realmente chovesse naquele dia.

Ao longe, mais a Leste, uma grande caravana se afastava. Ali, onde estiveram todas as armações e estruturas, lonas e demais quinquilharias do circo, haviam permanecido apenas os sinais de que este um dia estivera ali: duas estacas, Arlequim notara, foram esquecidas ainda fincadas solitariamente no solo e junto a estas um considerável retalho da lona de uma das tendas, onde grandes estrelas douradas foram ilustradas contra o azul escuro - talvez, às pressas, creram ter removido todas as mencionadas estacas, mas viram o erro ao puxarem a lona e esta se partir. Era uma possibilidade.

Uma pandeirola estava sobre o gramado - alguém certamente sentiria falta desta. Ao redor via-se grandes porções, geralmente circulares, da grama e suas minúsculas ramas ainda assentadas, inclinadas, tendo algumas adquirido uma coloração menos viva. Eram estas últimas, certamente, as maiores evidências de que um circo estivera por ali. Sobre elas estiveram estruturas de tendas ou arquibancadas, jaulas, caixas e caixotes, carrosséis, trailers e tantos outros objetos e estruturas. Arlequim estava em uma de forma circular, onde já se apresentara a grupos menores de espectadores em situações e números mais intimistas devido à proximidade com que o assistiram.

Aquilo tudo havia passado. Seriam apenas marcas em sua memória, assim como aquelas sobre o gramado. No entanto, a grama, em um ano ou dois, viria a “se esquecer” do circo e de tudo aquilo que este trouxera consigo.

Além de duas estacas, um retalho de lona, uma pandeirola e marcas sobre o gramado, Arlequim também ficava para trás. Havia escolhido assim. Havia escolhido, mas seria mentira dizer que não era estranho, mesmo levemente angustiante, ver a caravana se afastar, indo para um lugar para o qual ele não iria.

Aquele era o fim.

— Eu escrevo minha história — ele disse para si.

Havia algo de aterrador no “escrever a própria história”, havia a responsabilidade do “escritor”. Apenas teria de saber lidar com as consequências de sua “corajosa escrita”. Ninguém era capaz de entendê-lo melhor que ele mesmo, então acreditava ter feito a escolha certa no momento oportuno.

Acreditava mesmo? Ele suspirou diante da questão levantada pelas vozes que ainda ouvia, nada mais do que ecos da saudade precoce, ou da saudade de como as coisas já haviam sido mais simples.

A caravana, ele então vê, desaparece no horizonte. A solidão que paira é esmagadora, desoladora. Ela, diferente de outras vezes, lhe surge agressiva. Ele sente que ela o esbofeteia a face. Ele, no entanto, não foge dela. Já eram conhecidos, amigos, há tempo demais. Bons amigos discutem, se ferem, mas... nunca abandonam um ao outro. Ela parecia incapaz de abandoná-lo.

Ele, se esforçando, se levanta. Tinha de ir.

Uma memória lhe toma a mente, mas ele reluta em deixar que ela tome plena forma. Ela, porém, esta lá. Novamente ele se vê confuso, como se tivesse sido estilhaçado, feito em milhares de pequenos pedaços. Novamente a insegurança o toma e o abate. É como se cada um dos pequenos pedaços decidisse qual o caminho deveria seguir. Porém, por razões diferentes, eles tomam direções diferentes. Ir-se-iam se realmente pudessem. Ir-se-iam... como outros já se foram. “Eu não segurei suas mãos firme o bastante”, ele apenas pensa.

Ele, sucumbindo, senta-se outra vez. Sozinho. Sozinho ele viveu seus últimos anos; naqueles antes deste ele eram jovem demais para se importar com a solidão. Como crianças, em dados momentos, o ser humano soa tão fácil de agradar. Entretanto, isso, com o tempo, parece passar – a não ser que as prioridades sejam outras, que as questões, objetivos e sonhos sejam outros. Sozinho ele buscou seus sonhos, quais descobriu serem falsos. Ele procurou pela glória do amor, mas no fim encontrou apenas solidão.

Lembrou-se do estranho sonho que tivera na última noite. O momento em que ele retornava para seu assento e o encontrava já ocupado. Talvez, ele então pensou, que estivesse procurando sonhos que, na verdade, não pertenciam a ele. “Ou sonhos que não caberiam a mim sonhar”, concluiu ele sentindo-se outra vez imerso, sob o peso da ridiculamente esmagadora solidão. 

Felipe R.R. Porto

sexta-feira, 31 de março de 2023

Venha conhecer o Posers, Duo com Influência de Rammstein e Lacrimosa!

 


O embrião do Posers surgiu em 2008, mas o guitarrista e vocalista Guilherme Colosio e o multi-instrumentista Pedro Miranda somente retomaram as atividades em 2020. “Voltamos justamente em um período em que a humanidade foi forçada a se recolher e olhar para dentro de si. Devido ao isolamento social imposto pela pandemia, tivemos uma oportunidade de resgatar coisas que nos faziam bem e bastavam por si. A música foi um desses resgates”, comenta Colosio. O primeiro fruto do retorno do Posers se dá agora com o lançamento do single e lyric video de “Razão”, composta há mais de 10 anos, mas que vem acompanhada de uma estética condizente ao contexto político atual.


Por sua estética focada no clássico e em peças de teatro, o duo procura passar suas mensagens de forma abrangente no audiovisual. Assim, o trabalho para o videoclipe buscou ilustrar o comportamento de um psicopata e sua investida contra a vítima. “Ao longo do processo a troca de figurinos, maquiagens e cenários buscavam valorizar a instância da psiquê preponderante no momento e seus conflitos com as outras instâncias”, explicou Guilherme Colosio.

Além de referências ao metal industrial e ao gótico, especialmente Rammstein e Lacrimosa, o duo traz uma estética focada no clássico e em peças de teatro, principalmente na obra de William Shakespeare. Desta vez, o duo explorou timbres com ressonância, tendo sintetizadores e guturais fazendo contraposição ao silêncio e calmaria. “Exploramos timbres com bastante ressonância dentro de uma harmonia que não se resolvia rapidamente. ‘Lixo’ é para ser ouvida em volume alto para um maior envolvimento com a atmosfera criada”, concluiu o multi-instrumentista Pedro Miranda.


O último Single da Banda se chama ''Noite de Núpcias'' e conta com um vídeo clipe que pode ser conferido a seguir:





Youtube: posersbr











Solidão - Capítulo 2 : Olhares Passageiros

 


Olhares Passageiros

A turbulenta noite se fora, mas deixara lembranças de sua estadia. Arlequim dormira quando a Lua – vista parcamente e apenas uma vez em um momento de, talvez, misericórdia das arrogantes nuvens - se achava alta, a madrugada os abrigando. Não, não sentira sono. Concluíra que fora apenas vencido pelo cansaço e pelo tédio.

Esta derrota lhe conduziu a um sonho.

Neste sonho ele se encontrava em algo que provavelmente era um cinema. Teve confirmação disto quando notou a quantidade de cartazes expostos de forma costumeira pelos corredores. Porém, quando se atentou aos detalhes dos cartazes e ao que diziam foi tomado de assombro; um dos pavorosos cartazes anunciava a estreia daquela noite e era ele mesmo que vira retratado no fatídico anúncio. Viu-se retornando a outros cartazes e só então notava o propósito daquele cinema: exibir sua vida. Cartazes, cartazes e mais cartazes por todos os lados. Por mais que alguns deles não dissessem com ênfase ser ele o tema ele pôde reconhecer isso ao observar com afinco.

Observando um dos cartazes, qual era emoldurado e com uma peça de vidraçaria como proteção, Arlequim viu seu reflexo no cartaz. Os mesmos traços, a mesma maquiagem. Desviando a atenção do cartaz ele lançou um olhar por cima do ombro, percebendo assim que muitos olhares estavam sobre ele.

Aquilo não era um sonho. Era um pesadelo.

Ele, se afastando, às pressas procurou por uma sala. Caminhara de porta em porta, olhares ainda o perseguindo. Uma das portas chamou-lhe a atenção devido ao burburinho de vozes que vinha do seu interior – o que poderia fazê-lo se afastar se estivesse acordado, mas era um sonho. Tinha de ser.

Ele a abriu e vira o local apinhado de pessoas. Todos os assentos estavam tomados. Com exceção de um, ao qual se dirigiu. Nada menos do que um assento dobrável.

Sentou-se e olhou ao redor, sentindo o nervosismo lhe roer os ossos, lhe incomodar as entranhas, devido quão assombrado se achava com o número de pessoas presentes ali. Não deixou de acreditar, apesar de tudo, que não se tratava de algo real. Ele bem se conhecia: não iria a um local onde sua própria vida fosse exibida.

— Não, um sonho não – murmurou para si a conclusão de há pouco.  — Um pesadelo.

Destes não se consegue sair.

As luzes se apagaram. O filme se iniciou e o silencio humano que tomou o local era quase mórbido. Mais mórbido ainda foi quando memórias surgiram, o distante passado tendo vindo com elas, arrastado pela mão à força para dentro da mente de Arlequim. O passado que deixara de ser passado para estar em seu presente uma vez mais. Na imensa tela um estranho “eu”, o “eu” do passado – um fantasma – fita a face daquele em quem se tornara. Arlequim, no entanto, desvia o olhar, voltando-se, involuntariamente, para a multidão. Um sobressalto o tomou quando o grande salão é tomado por uma súbita explosão de risos. Gargalhadas. Alguns, ele nota, lhe lançam olhares, outros apontam o grande telão, onde algo cômico deveria estar sendo exibido. Arlequim reluta, mas logo seus olhos também se voltam para a sequência de imagens. O que ele vê? Um aleijado, quebrado, à deriva sobre as ondas.

Arlequim sente-se abatido, doente. Sente seu rosto arder, a vergonha lhe tomando de assalto. Ah, mas eles nada sabiam. Nada sabiam sobre ele. Não sabiam sobre as impressões do tempo sobre sua alma. Não, o tempo não fora tão generoso com ele como parecia ter sido com tantos. Ele, muitas vezes, chegara à conclusão que o tempo, para ele, se movia penosamente, como se este se arrastasse ao invés de caminhar. Seu tempo parecia estagnado, não notando ele nenhuma grande diferença entre o ontem e o hoje. Seu hoje, acreditava ele, nada mais era do que uma mera impressão do ontem. Seu hoje era uma estela onde tudo o que fora ali gravado... era o seu ontem.

Quando Arlequim volta a si ele percebe que, sem que notasse, havia baixado a cabeça, enterrando o rosto em pranto nas mãos agora úmidas. Quão imerso estava em tais pensamentos? Quão imerso estava em sua ruína? Olhando para as mãos nota manchas escuras nelas. Teve medo de imaginar como seu rosto estava naquele instante...

Na enorme tela a cena parecia prolongar-se. Aleijado. Quebrado. Ele sabia as razões, ele se lembrava daqueles dias. Lembrava-se que questões lhe assombravam; questões sobre os mistérios da Vida e Morte, seus significados... Aquilo o assombrava, o feria e o lançava sobre as vagas da dúvida, do sofrimento. Da dor. Agora, contudo, era diferente. Ele não tinha todas as respostas, mas sentia que tinha respostas o bastante para buscar prosseguir. “Hoje eu sei a resposta”, pensou ele, sobre uma pergunta em particular, “naquele tempo eu não sabia...”

“Eu tomei a decisão errada”, ele conclui intimamente, sua consciência sendo a única que o escuta.

Nova torrente de risos surge, expulsando seus pensamentos por um instante, enviando-os para os confins de sua mente. Arlequim, no entanto, não dá atenção ao que as telas mostram neste instante, sentindo apenas o impulso de se retirar. Às pressas ele o faz, levantando-se rapidamente e galgando feroz as escadas que o separavam da porta de saída. Suas entranhas, comovidas pelo intenso nervosismo, reagem, e sob o olhar de alguns ele sucumbe, caindo de joelhos sobre o carpete, arfando.

Aqueles olhares... aqueles mesmos olhares. Não, ele não sentia apenas vergonha, ou nervosismo. Sentira algo mais: sentira ódio. Diante daqueles olhares ele se perguntou, enquanto se levantava e buscava se recompor, se mesmo ali, na luz, ele poderia ser reconhecido. Se o fosse... ririam dele outra vez? Desejou que todos eles se retirassem. Que se fossem e vivessem suas vidas, deixando a dele. Era sua vida. Sua própria e intima vida! Eles não tinham o direito de agir como agiam...

No entanto, ele estava em um pesadelo. Não conseguia sair. Era decepcionante que mesmo desacordado ele permanecia assombrado. Era frustrante que seus sonhos se esvaíssem tão facilmente, feito algo lhe escapando por entre os dedos, e seus pesadelos fossem soberbos e resistentes. Imponentes.

Ele se levanta, cruza o corredor até a saída, mas estaca diante das portas, nada mais que vitrines. Lá fora uma multidão de pessoas aguarda para entrar. Arlequim balança a cabeça, sentindo seu corpo começar a refazer o caminho de volta. 

De volta para a sala onde tão constrangedora obra era exibida. Porém, quando ele volta e procura seu assento vê que este não estava mais vazio. Ele não reage, mas senta-se no chão, em um dos degraus e encara com firmeza a tela. Sim, era sua história. Seu filme. Não obstante, ele desejava saber o que aconteceria, qual seria o final de tão hedionda obra. “Eu ainda não sei sobre meus pecados... onde exatamente errei”, refletiu ele, pensando também que a ignorância não seria tão ruim. Há coisas que devem permanecer desconhecidas.

Era o filme de sua vida, mas ele não esperava muito. Aliás, esperava apenas que logo viesse a morrer, assim sendo, ele não teria de carregar o fardo que vinha carregando por tanto tempo.

— Me desculpem se minha vida perturba alguém — ele se viu dizendo em voz baixa. — Ao menos ela serviu de inspiração para um filme que as pessoas gostam.

Ele não esperava que alguém ouvisse, mas olhares se voltaram para ele, o repreendendo. Estava errado. Constrangido por estes mesmos olhares ele se voltou para a tela, onde era exibida uma cena estranha de se ver: sua morte.

Novamente há risos na sala e ele se pergunta, ainda assim, se seus risos de dor no ontem teriam relação com tal momento...

Novamente alguém está rindo do filme ali exibido. A gargalhada ecoa, quase podendo ribombar contra as paredes do escuro salão. Arlequim outra vez percebe olhares, aqueles malditos olhares sobre ele, mas neles não havia a mesma repreensão de antes. Havia horror. Estavam chocados.

Quem ria, quem gargalhava, era o próprio Arlequim.

Felipe R.R. Porto

quarta-feira, 22 de março de 2023

Solidão - Capítulo 1 : Lágrimas De Saudade


Outro crepúsculo se despedira cerca de uma hora atrás. O conhecido véu escuro da noite plena tomara com firmeza seu costumeiro lugar.

Outra vez parte do mundo estava sob seu domínio. As nuvens acima se estendiam em todas as direções, tendo lá permanecido ao logo de todo o dia que findara; um dia borrado por tons escuros – cinzentos e agourentos. Arlequim vira o mesmo céu dias atrás como se feito de rocha, hoje tivera um vislumbre mais específico, concluindo que este lembrava uma fria lasca de mármore, funesta e gélida.

        Estava desta forma já havia dias e Arlequim sabia que aquele clima ainda se estenderia por vários outros. A escuridão, de fato, acabara de cair. No entanto, já havia aqueles que preferiam recolher-se frente à exaustão e frente ao clima.

        Mas havia algo mais, ao menos para o exaurido palhaço, que vira seu dia envolto em um manto persistente de incertezas. De medo. E a noite seguia os mesmos pavorosos passos, enquanto os passos do palhaço o levavam pelos espaços entre trailers e tendas. Espaços agora praticamente desertos, senão por um colega de trabalho ou outro. Alguma fria corrente de vento conseguia serpentear por estes locais vagos, fazendo vibrar lonas ou fazendo tremular as bandeirolas que encimavam as tendas menores e aquela maior, onde os maiores espetáculos ganhavam lugar.

       Aquele lugar, normalmente separado para lazer e momentos de alegria, não era livre do toque da melancolia. Nada era. Ninguém era.

     Não há aqueles sem cicatrizes. Não há aqueles que se achem livres das dores. No entanto, sabe-se haver aqueles cujas feridas parecem recusar-se a se curar, a dor por elas provocada se estendendo sobre e através das paredes do tempo feito implacáveis ervas daninhas.

       Inúmeras vezes se vira prestes a sucumbir e inúmeras vezes ironicamente se vira rindo de si, do quão patético às vezes soara a si mesmo. Rira, mas lágrimas lhe banharam a face. Inúmeras foram as vezes em que desejara gritar consigo mesmo... Há quem afirme sobre o perigo dos inimigos distantes, mas não há pior inimigo do que aquele que habita as profundezas do próprio homem.

       Não há pior inimigo do que si mesmo.

     Fora tolo desde tanto tempo, mas a dor viera. Lancinante. A dor última, quiçá, de uma alma ferida. Assim, essa mesma dor, para esta mesma alma, trouxe lições. Assim surgira o racional medo do amor. Não soava sábio a seus ouvidos amar quando sua alma cruzara, a passos dolentes, a Via Crucis. O amor, então, fora o seu Calvário. Seu Gólgota. E lá ele fora humilhado, ferido, transpassado e morto.

     Estas lágrimas vertidas em silêncio se tornaram máscaras sobre seu rosto; a luz que emite sombras e obstrui a si mesma. Não, não há utilidade no esconder-se de sua dor. Há apenas mais dor. Voraz e avassaladora dor. Assim, lá ele permanece. Ainda de pé, lágrimas lhe escorrendo pelo rosto, mas aprendera que certos atos são tolices. Aprendera que deveria ser quem era, não quem obstruísse esse mesmo ser.

     Foi assim, Arlequim acreditava, que a noite então deu à luz seu filho mais jovem: um sonho. Um sonho de amor, um sonho de saudade – de anseio. Desta forma trata-se de um sonho apenas para os olhos, não para o deleite das mãos. Sendo o que é, é apenas um sonho para se meramente sonhar e jamais para ser vivido. Um sonho para os olhos, apenas para contemplação; o tesouro inalcançável, por isso também, uma vez mais, um sonho para as mãos. Ou melhor, uma ilusão para as mãos.

       Pobre filho da noite. Eis seu sonho de amor... de sua saudade.

    Contudo, esta criança, esse filho da noite, possuía olhos que até então não haviam realmente contemplado a beleza. Assim sendo eram fracos, limitados, para ser maravilharem. A luz gloriosa do sol nascente, então, não veio para este filho. Ele, agora se vê, era cego. A luz, tão bela, estava lá, mas não para olhos feito os dele. Cegos... talvez, de alguma forma, imaturos.

       Ele, no entanto, fora cego por muitos anos, mas não por não poder ver. Era cego por não ser capaz de admirar. Assim como existe a diferença entre o mero ouvir e o precioso escutar.

   Esta criança, esse estranho sonho, era ele mesmo. Ele, apaixonado pela noite, e alimentado pelas poéticas expectativas que nela aprendera a ver com o passar dos anos.

      Sim, uma criança, mas estes mesmos anos que lhe ensinaram o “admirar-se” também lhe mostraram que suas mãos eram velhas, eram calejadas pelo viver. No entanto, ainda que velhas, permaneciam intocadas. Talvez, apenas talvez, uma explicação devesse ser concedida. Entretanto, a única que poderia lhe ser dada estava perdida.

       Mesmo esta se achava perdida.

     Isto tornava suas lágrimas um amargo mistério; mas ele as vertia em silêncio, atrás da cômica máscara que passara a usar. Lágrimas de um anseio apenas sonhado, de uma saudade de algo ainda não experimentado.

Felipe R.R. Porto