domingo, 20 de agosto de 2023

Satura - Capítulo 4: Tentação

...mas ele não passaria por tudo aquilo novamente. “Prefiro morrer”, pensou ele, um tanto quanto amargamente.

— Já volto — Kális disse, um tom perene na voz, se retirando. Pierrot acompanhou-a com os olhos enquanto se juntava a um pequeno grupo no início do corredor pelo qual vieram. Não duvidava que fossem seus pais e familiares. Não duvidava também que vieram à sua procura para partirem e, havia uma boa probabilidade, para a repreenderem.

Pierrot deu as costas para a cena, voltando a ser imerso pelos pensamentos recentes.

Sua mente, naquele instante, buscava fitar o passado, mas este estava cinzento, como se uma espessa névoa lhe turvasse a visão. Era uma espécie de defesa que surgira com os tempos, anuviando sua perspectiva a fim de que não se ferisse. Um mecanismo.

Havia muito que ele mesmo gostaria de compartilhar com Kális, mas eram palavras duras que, mesmo o mero pensar o deixavam levemente nervoso. Não, aquelas palavras jamais deveriam ver o mundo. Deveriam permanecer com ele. Permanecer nele e, se necessário, ir para o túmulo quando seu corpo cansado finalmente para lá fosse.

Seu silêncio, então, era necessário. Palavras podem ser distorcidas. A serpente distorceu as palavras de Deus. Pierrot queria escapar da possibilidade de ter as suas distorcidas por humanos. Sim, Kális era sua amiga, razão pela qual devesse confiar mais nela. Correto?

Ele não tinha certeza. Não mais.

A conhecia bem demais. A maldita memória permanecia lá. A amizade é um belo laço, mas pode, em circunstâncias, se tornar um escudo inconveniente. O amigo sabe demais, conhece demais, mas quando a amizade se concretiza? Amizade é sempre estar junto? Amigos sempre concordam? Amigos... mentem? Ao longo dos anos o medo se enraizara vigorosamente em Pierrot tal qual uma planta parasita o faria a uma dríade, a adoecendo. Ele não conseguia evitar. Não era forte o suficiente. Não confiava. Todos os seres humanos, em sua ardilosa forma, em momentos soavam tal qual inimigos.

Amava a Kális, admitia. No entanto agora temia que tal sentimento fosse apenas uma cortina erguida por alguém que o apunhalaria através dos tecidos. Ele não perceberia o golpe vindo. Não reagiria.

Aquele era um dos infames momentos onde o que pensava não se alinhava com o que professava crer. Seus olhos novamente se alinhavam com o crucifixo à frente.

— Amor sacrificial — disse ele, um suspiro sendo liberado em seguida. Pareceu doer. — Consigo amar, Senhor. Contudo, consigo me sacrificar?

Ambos sabiam que não.

A presença de Kális naquela noite viera como uma neblina intensa, tal qual aquela que repousa densa em baixios úmidos e frios – densa e quase palpável. Parte dele ansiava pelo passado. Profundamente. Ali, em silêncio na gélida e imaginária neblina, ele conseguia ver algo; apenas contornos, silhuetas, mas era o bastante. Ali ele pôde ver, como se sua memória tivesse se tornado matéria.

Seu passado se tratava apenas de ruínas. Nada mais.

Medo. Medo. Medo. Apenas isso havia ali. E uma insignificante fagulha de esperança. Essa fagulha o fez querer se adiantar na direção da neblina, adentrá-la. Ver se lago jazia em suas entranhas, além das silhuetas.

— Quem sabe — ele disse para si — não há alguma beleza entre os escombros? Quem sabe se lá não encontro minha deusa, minha Vênus singular, da qual conhecerei toda a plenitude?!

Seu coração pulsara forte. Firme. Ele se vê estendendo uma das mãos para tocar as ruínas, mas a recolhe rapidamente em seguida, sua face se distorcendo ao mero pensar, o mero recordar-se da dor.

Ele recolheu a mão como alguém que, hipnotizado, mas agora desperto, vira-se prestes a colocar o braço dentro da terrível toca de escorpiões.

— Eu prefiro morrer! — disse Pierrot entredentes, toda a paisagem se dissipando e ele se vendo novamente na igreja cada vez mais silenciosa.

Ouviu passos às suas costas. Virou-se em tempo de ver Kális retornando.

“Vênus...”, sua mente cantou. Lá, nas profundezas, nos corredores das galerias, ele pedia por ela. Se ela lhe verdadeiramente lhe pertencesse a ela se dedicaria, estaria sempre à espera dela para se dedicar a ela, apenas a ela e plenamente a ela. Ele se devotaria a ela tal qual um fervoroso acólito, feito aqueles que em suas fés se prostram diante de seus deuses. Pediria por mais dela, a despiria a fim de conhecer sua sacra essência em profundidade. Prometeu, conta o mito, fora atado a rochas, e Pierrot sabia que se ataria ao enlevo pálido dos seus seios, alvos como o frio e elegante mármore. Ele se submeteria apaixonadamente a ela, se esconderia sob suas asas... Lembrara-se de dias em que entregue à imensidão de seu sentimento viu-se indagando se era ela uma deusa pálida ou apenas um comum ser humano. No fim não importava, pois seu âmago pedia por mais dela, por mais da sua presença...

Se ela fosse a personificação de um abismo ela pediria para que ela permitisse que ele caísse em sua vasta imensidão...

Ela parou diante dele. Sorriu. O mais belo sorriso que já vira. Ao invés de torna-lo ainda mais imerso em seus pensamentos, isto o fez despertar, rejeitando cada singela tentação.

“Não”, ele disse mentalmente, sorrindo de volta para a bela diante dele. “Eu prefiro morrer a viver tudo isto outra vez.”

Felipe R.R. Porto


quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Satura - Capítulo 3: Crucifixo

 


Kális não estava interessada em esperar as pessoas saírem antes que ela pudesse entrar.

Galgaram os degraus que davam acesso ao corredor que levava à porta enquanto o fluxo de pessoas fazia o oposto, sendo flanqueados pelos pares de colunas antes vistos.

Pierrot, enquanto se moviam na direção contrária à das demais pessoas que deixavam o sacro lugar, não pode deixar de notar alguns olhares de reprovação. Não era de se surpreender, porém. Afinal eles estavam adentrando o lugar após o término da celebração. Ainda mais constrangedor seria se alguém demonstrasse ter notado que Kális e ele estiveram ali fora em todo o tempo.

No entanto, nada foi mais constrangedor do que ter encontrado o ministro à porta, se despedindo das pessoas que saiam.

— Amo a arquitetura deste lugar — Kális disse após já terem passado pela torrente de pessoas. Ali dentro havia apenas grupos dispersos ou se dispersando. Na direção do altar pessoas em vestes sacramentais iam de um lado para outro. — Pessoas podem falar o que quiserem sobre religiões cristãs, mas não podem descordar quanto à beleza dos templos.

Ela estava certa.

O lugar era deslumbrante, como antes ele já havia reparado outras vezes, mas não podia não fazê-lo outra.

Kális já havia soltado de sua mão e escapava para o corredor à esquerda. Ela logo parou diante de um dos muitos vitrais, fitando um que ambiciosamente representava a crucificação de Cristo. Uma peça rica para um vitral.

— É realmente lindo — Pierrot comentou, parando ao lado da mulher.

Ela bufou ao lado, se divertindo.

— Só assim para você elogiar a Igreja, não?

— Elogiar a arte na Igreja — ele corrigiu. — Teologia, História e vida prática nem sempre andam de mãos dadas no Catolicismo Romano. Ou mesmo em outras vertentes, sejamos honestos.

Ela não o instigou a falar. Por mais que se divertisse com suas reações, ela certamente não se divertiria com suas opiniões.

— Você ainda crê n’Ele? — ela perguntou, acabando por desviar o olhar da peça de arte. Pierrot a fitou, por sua vez. Era apenas uma representação e ele entendia muito bem disso.

— Claro que sim – ele disse com solenidade. — Creio muito.

Ela apenas assentiu, ele viu com o canto dos olhos.

— Aprendemos que Ele fez o que fez por amor — ela interpelou. — Um grande amor. Um amor assombroso, eu diria. Quero dizer... não vemos muitos atos assim, vemos?

Ele balançou a cabeça em negativa.

Haviam recomeçado a andar, indo em direção ao altar, mas sem deixar o corredor. O lugar se tornara um pouco mais vazio, sendo que dos grupos de antes apenas um permanecia. Não deveriam se demorar ali.

— O que é o amor para você, Pierrot? — ela acabou lhe perguntando quando chegaram ao fim do corredor. Diante deles, na parede, um crucifixo sustentava um homem sofrendo dores horrendas. Pierrot acreditava que boa parte dos “cristãos” falhavam em ser cristãos reais apenas por ignorância – opcional ou imposta.

Ele não era a pessoa mais própria para responder aquilo. Ele sentia que ela deveria saber. E se sabia não entendia a razão de ela perguntar. Seria um teste?

— Eu diria que amor é devoção — disse ele simplesmente.

— Pode falar mais do que isso, por favor — ela o instigou com um tom levado na voz, percebendo que ele não diria mais. — Sei, apenas pelo seu rosto, que gostaria de divagar um pouco mais sobre isso...

Aquilo o divertiu. Era verdade.

— Não me entenda mal, mas o próprio Cristo se devotou à humanidade, ainda que primeiramente Ele o tenha feito a Deus — Pierrot disse. — Já ouviu pessoas dizendo que a igreja – todo os que creem – é a Noiva de Cristo?

Ela fez que sim.

— Ele a amou tanto que morreu por ela — explicou. — A cruz foi uma singular e até escandalosa, assim digamos, declaração de amor. E esse amor, aquele derramamento de sangue... deveria nos fazer chorar torrentes de lagrimas. Infelizmente, não nos devotamos a Ele como Ele se devotou a nós.

Aquilo causou um momento de silêncio. Ele não esperava por esse resultado. Aliás, ele não o pretendia.

— Quando amamos alguém demonstramos certa devoção — ele continuou na tentativa de trazer a conversa para o ponto qual ele cria ser o objetivo de Kális. — Há momentos onde nossos seres parecem implorar, suplicar, uns pelos outros, apenas para que seja sentido Amor. Para que ambos sejam completados. Sem orgulho. Sem humilhação. Havendo devoção sincera de ambas as partes... ambas confiarão. E confiando... se renderão.

— É tão belo que soa utópico, não acha? Soa... arriscado?

— E é — disse ele. — Mas se você consegue sentir a genuinidade do amor do outro seu medo se vai. Você entrega seu coração, seu pequeno bem mais precioso, e decide que pode confiá-lo a alguém.

— Mas e se esta pessoa falhar?

— Tenha certeza que vai.

— Então não é inteligente se fazer algo como se entregar...

— Então, se você chegar a pensar desta forma, não é amor. Claro que não deve continuar.

Aquilo provocou outro momento de silêncio. Ele não perguntaria a ela, mas não conseguia evitar um pensamento: aquela questão a vinha incomodando.

— Devo acrescentar que as pessoas que amam também falham — ele disse. — Você, Kális, falhará com que ama ou vai amar. Não quero focar no aspecto religioso, mas minutos atrás eu estava falando sobre Cristo ter morrido por Sua Noiva. Eu mencionei que a Noiva é a Igreja, Igreja que é composta de seres humanos, os quais são, em termos teológicos, miseráveis. Falhos. A Igreja nunca amará a Cristo na mesma medida em que Ele a amou, mas tudo bem. Ele a ama e sabe que, apesar das falhas, ela O ama também. Aqui chegamos a uma quase impossibilidade nos tempos modernos: o Amor Incondicional.

— O amor hoje é condicional — Kális disse. — Está atado a algo que possa ser oferecido em troca. Eu te amo “se” e não “eu te amo apesar de”. Não é?

Ele fez que sim.

— Amar alguém perfeito... talvez não seja amor — ela completou.

— Concordo. Além de não existirem pessoas perfeitas — ele lançou um olhar para ela, que sorriu, desviando o olhar para o ponto acima deles.

Onde estava o crucifixo.

— É. Existiu uma — ele se corrigiu, pensando na pessoa do homem representado no triste objeto.

— Queria não ter falhado com você — ela disse. — Você não merecia.

— Não carregue o fardo sozinha — disse ele. — Também tive minhas falhas.

— Hoje em dia eu não vejo assim — ela contou. — Acho que você foi o único que me amou. Em toda a minha vida, Pierrot. Bom, você me amava, não?

Ele, desde o inicio daquela conversa, teve medo de que aqueles rumos fossem tomados. Não queria. No fundo, por um lado, ele temia crer menos que ela nas coisas que dissera nos últimos minutos.

Apesar disso ele não era um mentiroso.

— Sim — ele disse, por fim, mas não se voltou a ela. — Creio em anjos e você era o meu. Acredito que pecamos e você era meu pecado mais doce. Você era meu sol... a minha fúria. Minha musa, minha luxuria e maior desejo. Tudo isto temos na vida humana... e era isso o que você era pra mim. Vida — suspirou ao dizê-lo, um tanto descrente de estar dizendo todas aquelas coisas. Daquela forma. Ainda existia o medo em seu coração, mas decidiu lutar contra ele a fim de dizer o que já queria ter dito antes, mas como uma declaração e não como uma lembrança, como agora o fazia. — Você se tornou o lugar onde eu queria me demorar, onde me sentia abraçado. Eu apenas desejava que você continuasse me cativando, me guiando para o seu mundo. Eu me “devotava” a você, desejoso de fazer parte do seu “reino”. Adentrar sua aura e espírito; sua alma e carne...

Pierrot fitava o crucifixo, mas se voltou para Kális antes de prosseguir:

— Já leu a parte da Bíblia que fala “por suas feridas fomos curados” ou “sobre si levou dor e transgressão”... “homem de dores”?

Ela fez que sim, os olhos um escuro oceano. Aquosos.

— Sua dor e feridas... eu as teria tomado para mim — disse ele enquanto fitava a profundidade daquele sublime par de olhos, as voltando-se para o crucifixo outra vez. — Eu teria, se necessário, aceitado se crucificado por você.

A verdade, Pierrot sabia, era que, apesar de tudo, ele ainda a amava...

Felipe R.R. Porto

terça-feira, 25 de julho de 2023

Satura - Capítulo 2: Memória


 Pierrot aceitara o convite.

“A memória é algo curioso”, Pierrot pensou enquanto caminhava ao lado de Kális. Memórias eram a razão do passeio. Kális o conduziu por praças – naquela noite levemente cobertas da neve que começara a se precipitar mais cedo, ainda o fazia, mas de forma amena – onde caminharam quando mais jovens, bancos onde já se sentaram e conversaram enquanto, vez ou outra, bebiam ou comiam algo. Por ali também já estivera com outros poucos amigos que tivera...

Memórias resumem as pessoas, suas mentes e olhares – feridos ou não. Elas estarão sempre lá, às vezes palpáveis enquanto outras estarão enterradas, escondidas no interior de cada um.

Sua bivalência também é algo curioso, no entanto, pois elas fortalecem, mas também devoram – às vezes sorvendo de todo uma pobre alma, afundando-a em lamentos.

Isso acontecia a Pierrot agora, que era surpreendido pelo poder das lembranças. Em cada canto daquela cidade ele via fantasmas de Kális e de tantos outros. Inclusive de si mesmo – mas alguns diferiam daquele que sempre levava consigo. Estavam lá, eternamente, mas ao mesmo tempo, se mantinham dentro de cada um deles, como faria um tresloucado amante pela pessoa amada.

— Você os vê também, não vê? — ele perguntou a ela. — Nossos fantasmas em cada canto dessa cidade...

— Não seria estranho se não víssemos? — ela retrucou. — Aliás, não se tratam de maus fantasmas. Somos nós. Apenas nós, Pierrot. Podemos hoje nos arrepender de coisas que fizemos, mas isso não faz de nós “assombrações”, faz?

Ele a entendia. Ela estava certa.

Embora não de todo.

Em alguns lugares Pierrot via a si, mas aquele mesmo “eu” que o aguardava pelas estranhas e mórbidas galerias de sua alma. Aquele mesmo “eu” que um dia ele jurara vencer, mas até então não conseguia. Sim, aquele “fantasma” o perseguia obsessivamente como o amante anteriormente mencionado. Eles eram tão diferentes, então não podiam ambos se tratar dele. Podiam? Pierrot gostaria de poder ver-se livre das dores do passado, das frustrações, de forma que olhar para o amanhã fosse possível e positivo.

Ele esperava que isso, quem sabe, acontecesse. Poderia dizer que sentia fé da realidade disso, ainda que o medo persistisse lá.

Enquanto isso o fantasma persistiria. Ele o veria quando fitasse seu reflexo e naqueles olhos – em seus olhos – veria apenas obsessão.

A memória que devora e melancolicamente o engole. Aquela que assombra. Que está sempre lá.

— As lembranças são uma espécie de refúgio — Kális disse enquanto viravam uma esquina e uma praça se revelava. Haviam voltado à praça onde se achava a igreja. Foi naquela mesma praça que vieram a se conhecer anos atrás. Era uma noite como aquele, fria e com cânticos sacros. Eles eram pouco mais que crianças, mas fora o bastante pra que uma história tivesse início entre eles. E também um fim. No entanto, era “o” fim? — Um templo . Elas são aquilo que somos, ou ao menos a água da qual bebemos, nos nutrindo e nos moldando. Acabam, ainda que amargas aqui e ali, sendo mesmo nosso alimento. Alguns de nós gostariam de ainda ser aqueles fantasmas. Eu mesma gostaria...

E ela fez silêncio. Ela havia mudado, Pierrot agora notava. Houve tempos em que ela era geniosa e até inconsequente. Ali, no entanto, estava uma pessoa, aparentemente, arrependida?

— É inegável o poder que elas, as lembranças tem — Pierrot disse, não deixando que o silêncio se estendesse demais. — Elas são nosso solo, assim como acabam sendo, muitas vezes, as próprias sementes. Às vezes são paternas e não posso deixar de lado que há péssimos pais neste mundo. Se não soubermos gerenciá-las – perdão pelo termo um tanto técnico – elas serão preciosas demais, divindades para nós. Um tipo de deus... ou mestre contra os quais nada tentaremos...

“Ou fantasmas”, pensou ele apenas, embora sua vontade fosse dizê-lo em voz alta.

— Falamos disso como se a “memoria” fosse algo palpável. Uma pessoa? — Kális sugeriu. — Certo, ela tem seu valor, mas nós a construímos, não? Nós somos os mestres, Pierrot. A “memória” deveria ser mais grata a nós ao invés de apenas nos causar saudade. Saudade é algo bom de se sentir, mas em momentos é como se fossemos golpeados... ainda que não queiramos nos deixar esquecer. Enlouquecedor, não acha? — ela indagou, lhe lançando um olhar vesgo, sorrindo em seguida.

— Isso no mínimo — ele respondeu, sorrindo de volta enquanto se sentavam no mesmo banco de antes. — Ela nos salva e educa, depois nos seduz de formas grotescas que cada um de nós bem conhece.

— Se pudesse dizer algo para a “memória”, o que diria?

Ele não precisou pensar muito.

— Diria que a amo... mas que a odeio por isso.

Kális fez uma careta, dando a entender que a resposta fora boa, mas não era tudo.

— Você não acha que é dramático demais? — comentou ela pouco antes de o sino começar a repicar às suas costas. Olhando na direção do templo viram que este se esvaziava. — Venha comigo – chamou ela, não percebendo o quão estranho aquilo soara, visto que, como antes, ela apenas lhe tomara pela mão e o forçara a ir com ela.

Felipe R.R. Porto

terça-feira, 11 de julho de 2023

Satura - Capítulo 1: Satura

 


As ruas estavam calmas. Adiante um coro cantava, mas ouvidos que não procurassem por ele não haveriam de ouvi-lo.
Pierrot deixou o restaurante pouco depois de saborear sua melancólica refeição, tendo tomado duas taças de vinho – o bastante para deixa-lo ao menos leve. Ele precisava se sentir assim naquele momento. Precisava de algum descanso ou algo que se parecesse com isso.
Caminhar pelas ruas molhadas sob as luzes alaranjadas dos postes lhe trouxe um sentimento de satisfação que há muito não sentia. Ainda que se tratasse apenas de uma caminhada, sentir-se livre não era algo a que devesse ser referido como “apenas”. Para Pierrot significava muito. Os anos no circo haviam o consumido de forma inesperada, ainda que gostasse de sua arte e de entreter pessoas. Uma ironia?
Não importava. Ali, naquele momento, ele não queria que importasse.
Não estava caminhando a esmo, ainda que livre. Seguia o coro que persistia cantando. Pierrot julgava que a celebração deveria estar em sua metade, visto que fazia pouco mais de uma hora que, da varanda de seu quarto, assistira os devotos em procissão metódica.
Poucas pessoas caminhavam pelas ruas naquele momento e nenhum carro, ou qualquer outro veículo, fora visto. Ele preferia assim. Afinal, na verdade, aquele não era um vilarejo tão desconhecido para ele. Verdade era que crescera ali e cada passo era como adentrar lembranças. Lembranças. Ainda estava imerso nelas quando a bela igreja assomou diante dele, situada, como era de costume em várias cidades, em uma praça apenas tomada por esta. Os vitrais brilhavam em cores vivas, cativados pela luz interna.
Pierrot cruzou a praça de paralelepípedos. Sentiu-se um tanto desconfortável, mas logo tal sensação se foi quando constatou – estranhamente – que não vestia mais as roupas de Arlequim.
Alguns passos depois o colocaram diante da igreja. Dois pares de colunas sustentavam a cobertura abobadada do pequeno corredor de acesso à nave principal do templo. As portas estavam abertas.
Entrou.
O local estava razoavelmente vazio, o que ele não esperava. Vários bancos estavam desocupados e os fieis se espalhavam ao longo do espaço oferecido. O ministro, um homem grisalho com seus quase cinquenta anos, prosseguia com seu sermão. Pierrot não quis dar atenção demais, mas apenas procurou um lugar. Como não tinha preferência sentou-se no último, seus olhos logo vagando pela construção. Catedrais, igrejas, capelas dificilmente eram locais escassos em beleza. Normalmente era o oposto. Vitrais vivos em cores, esculturas pelos cantos e floreios ornamentando paredes, colunas e abóbadas.
Olhava da direita para esquerda, da esquerda para a direita e repetia. Da esquerda para direita, da direita para a esquerda...
... sobressaltou-se um tanto audivelmente quando seus olhos voltavam para a direção à sua esquerda, onde uma jovem vestida de branco havia se sentado. Ela não deixou de rir da reação dele, enquanto tudo o que ele pôde fazer foi olhar ao redor a perceber que olhavam para ele. Baixou os olhos, não desejando estender o momento. Percebeu que o ministro também havia se silenciado.
Olhares. Olhares. Aqueles olhares... Começara a ser abatido pela tristeza, mas a jovem o tomou pela mão e, pouco tempo depois, estavam ambos na praça.
— Você não mudou muito, não é? — Kális perguntou. — Ainda consigo ver como socializar te incomoda.
— Bom, eu não vejo desta forma — Pierrot disse, após sentir-se recomposto o bastante para prosseguir. — Eu mudei, apenas não mudei como se espera...
Ele sorriu, mas era apenas uma leve torção nos lábios. Fora uma piada o que dissera, mas sabia as implicações. Kális também sabia. Ainda que o tempo tivesse passado desde a última vez que se viram, ela ainda parecia conhecê-lo bem o suficiente. 
— Ainda olha demais para dentro de si, eu vejo — ela disse, conclusiva — Isso, às vezes, não é a melhor forma de viver.
— Ainda que os maiores problemas existentes estejam dentro de nós?
— Exatamente pelo fato de que os maiores problemas existentes estejam dentro de nós.
Ela sorriu de volta, quase que o imitando.
— Somos nossos piores inimigos, Kális. Ignorar esta verdade é pedir uma auto sabotagem. E nós, humanos, somos muito bons nisso.
— Certo, e como tem estado seu inimigo interior? — a pergunta não demorou em vir.
Ele se viu paralisado por um instante. Aquilo fora inesperado. — Você nunca gostou de me ouvir falar sobre isso — relembrou Pierrot. — Não é, então, muito sábio da sua parte perguntar isso, não acha?
Kális deu de ombros.
— Talvez hoje eu não esteja pensando em ser sábia. Cometi erros muito maiores do que ouvir um amigo falar sobre como se sente – e eu não chamaria isto de erro.
Pierrot sorriu, baixando os olhos, mas ouvi-la chamá-lo de amigo mexeu com algo lá dentro, em seu interior. Olhando outra vez para Kális ele notou que ela o olhava como se esperasse algo. Ela realmente queria ouvi-lo?
— Ele está barulhento — Pierrot disse, suspirando antes de prosseguir. Por mais que ela houvesse o instigado, ainda não se sentia seguro o bastante para falar sobre. Normalmente não o fazia. — Às vezes gosto de imaginar minha existência sendo algo como uma galeria. A Galeria da minha essência; do meu espírito. Há uma música tocando constantemente, a música da minha alma. Volta e meia volto para lá, caminhando por suas sessões. Volta e meia também me deparo com um espaço vazio, um buraco em minha alma, do qual às vezes busco cuidar. Meu “outro eu” também vaga por esta Galeria, sempre servido de uma taça onde prova das minhas lágrimas – uma vez ele ofereceu-a para mim. Aceitei, mas apenas uma vez. Foi quando, cansado, resolvi esperar por ele, até que das sombras dos corredores ele surgisse...
Ele parou. Doía falar a respeito. Era como tentar sair de si mesmo, mas rasgando a pele para isso. Provavelmente pelo fato de não tê-lo feito em anos. Aliás, já o fizera realmente antes? Provavelmente não, muito menos com aquelas palavras. Sim, eram honestas, eram sua forma de descrever como se sentia. Era o melhor que podia fazer. Do contrário nada poderia, pois se não falasse como falava seria incapaz de descrever-se. Era como se via, feliz ou infelizmente.
— Ele não parece ser muito simpático — Kális comentou, mas sem aparente desconforto diante da tão metafórica narração.
— Normalmente não é.
— Esta Galeria... — ela persistiu, soando genuinamente, incomodamente curiosa — o que mais pode dizer sobre ela? Te conheço faz tanto tempo, mas faz tempo também que não nos falamos. Foi construída recentemente?
Pierrot não pode evitar se divertir.
— Creio que ela foi “compreendida recentemente” — respondeu ele. — Penso que sempre esteve lá. Porém, é maior do que eu mesmo esperaria. Apesar de ter paredes há grandes salões e no centro há um espaço, semelhante a uma praça – uma praça extremamente grande -, cercada pelos muros dos meus medos e onde também encontro a solidão... e nela e com ela caminho. E... lá — ele engoliu, não sabendo se era certo continuar —, lá, dentre tanto o que sou capaz de ver, eu ainda... vejo você. Por alguma razão você está lá, mas você está de costas e não me mostra seu rosto mesmo quando eu peço...
Ali, porém, ela o fitou profundamente. Quase o constrangendo. Desejava que ela o fizesse parar, mas seus olhos pediam o oposto.
— “O que vai acontecer?” é o que me pergunto com frequência — ele acrescentou enquanto continuava. — Lá, em minha mente, onde certo caos reina. Onde posso ver sombras mesmo nas mais pálidas mãos, onde últimas refeições são sempre oferecidas! Lá eu te sinto vividamente... mas o que significa? O que vai acontecer? Há o desejo de viver, de me aproximar e tocar, mas há o medo. Forte e incontrolável medo. Se aproxima, então, o triste crepúsculo da minha alma. Fecho os meus olhos sempre que chega e, ainda que você não se volte para mim eu estendo a mão, mas não te toco. Toco a mim. Toco o meu “eu” apavorado acocorado pelos escuros cantos da mórbida Galeria.
Ela pareceu não saber o que dizer. Não que ela nunca o tivesse levado à sério antes, mas ela, naquele instante, diante dele, pareceu diferente. Era como se ela estivesse... sofrendo também? Ele não sabia. E mesmo que fosse isso e ela também sofresse, o exteriorizar aquilo ainda era uma ferida se abrindo.
Estava se sentindo exposto. Vulnerável.
Kális havia desviado o olhar. Observava a praça deserta. Havia certo ar tristonho, qual estranhamente tornou-se mais presente quando corais cantaram à suas costas, dentro do templo.
— Você se sente perdido? – ela perguntou, seus olhos se voltando pra ele.
— Talvez... — foi a resposta. — Esta Galeria, apesar de ser um lugar estranho e imenso, tem tantas portas. Portas e mais portas e até então, entretanto, não abri nenhuma delas. Caminhos demais e, infelizmente, acabo desconfiando de cada uma delas. Olhei pelos buracos das fechaduras, vi alguma beleza do outro lado, mas é tudo? Não me soa o suficiente para que eu arrisque. Sua vista desta praça não vai lhe dizer tudo o que precisa saber sobre toda a cidade. Quanto a mim, Kális, é um paradoxo: há correntes em mim, mas em momentos sinto que sou eu que me agarro a elas.
Pierrot parou de falar. Neste momento não pela dificuldade em prosseguir, mas por perceber que uma das mãos da mulher ao seu lado agora repousava sobre as suas, quais ele, inconscientemente, deixara descansar sobre seu colo.
— Há um momento em que você se volta pra mim na Galeria — ele acrescenta, mas as palavras a serem ditas pareciam não desejá-lo, sendo frutos que um dia seriam eminentemente colhidos, mas era como se não quisessem tal destino. Talvez fossem apenas palavras, apenas alegorias, mas ainda assim temeu e se constrangeu pela persistente sensação de vulnerabilidade.
Mesmo quando sente a mão de Kális segurar mais firmemente as suas.
— Lá — ele diz ao decidir prosseguir —, quando minhas forças, meu vigor, se esvaem com o avanço do tempo que me obscurece os olhos, me percebo velho. Cansado. Há, no entanto, uma última vez em que tento te alcançar. E, por incrível que pareça, eu vejo que você se volta para mim, seu rosto finalmente revelado após tamanha espera! Mas percebo então que meus olhos se tornaram débeis, minha visão turva. Eu, lá, estou velho demais e não posso mais ver seu rosto.
Ele mesmo não entendia plenamente aquilo – ou se recusava a entender. Kális, porém, se afundou em silêncio. Os lábios se separaram como se prestes a dizer algo. Mas nada a respeito veio deles. Contudo, sem largar da mão de Pierrot ela se colocou de pé.
— Vamos dar uma volta — chamou ela, solenemente.

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"SATURA" é o termo em Latim para Sátira.

Na literatura latina, Sátira é uma composição livre e irônica contra instituições, costumes e ideias da época. Podendo ser também uma composição poética que ridiculariza os vícios e as imperfeições.

Felipe R.R. Porto


segunda-feira, 22 de maio de 2023

Solidão - Capítulo 6 : Bresso


A cidade estava um tanto movimentada. Um sino repicou mais adiante. Ele sabia de onde vinha, embora não avistasse ainda o local. O sino prosseguiu repicando enquanto Arlequin testemunhava um fluxo cada vez maior de pessoas se arrastarem na mesma direção. Isso confirmava sua suspeita de que provavelmente uma missa seria celebrada em pouco tempo.

Não importava, porém. Não fazia diferença. Fazia? Ele não pode conter o impulso de elevar seu olhar contra as nuvens cinzentas daquele dia. Seus olhos, no entanto, não queriam apenas fitar o céu. Eles procuravam uma resposta.

Tal resposta, ao menos naquele instante, não veio.

Arlequin avistou mesas dispostas em frente a um prédio simples, mas de aparência reconfortante. Possuía dois andares e um toldo cor vinho se debruçava sobre as cadeiras antes mencionadas. O local não parecia apenas um restaurante, mas um hotel. Isto fez com que logo quisesse parar, pensar e decidir passar a noite ali.

O restaurante, conforme Arlequin se aproximou, revelou ter como especialidade “massas”. Curioso, mas isso não era um detalhe que fosse relevante quanto sua permanência ou partida. Logo ele conseguiu um quarto para si, sentindo certa urgência em tomar um banho e se livrar da maquiagem e roupas. Deveria tê-lo feito antes, mas não conseguira. Esperava fazê-lo agora – bastava a forma como o olharam quando adentrou o restaurante que, apesar de simples, ainda conseguia ser requintado, boa parte da mobília sendo feita de mogno reluzente.

Ignorou os olhares, entretanto.

Já no quarto lhe cedido ele percebeu que não tinha mais tanta urgência em procurar um chuveiro. Ao invés disso ele quis aproveitar algo que o quarto lhe fornecia: havia uma singela sacada dando para a rua por onde viera e por onde as pessoas prosseguiam sua romagem. Havia uma amurada sobre a qual se debruçou, apoiado nos cotovelos, enquanto seus olhos acompanhavam as pessoas passando e, pouco depois, ele percebeu que podia avistar, dali, a tal igreja. Era uma capela, apesar de robusta. Sua formação não sugeria uma nave trabalhada como em catedrais, mas uma rosácea gótica demarcava a fronte, esta encimada pela costumeira torre pontiaguda, qual, sobre o telhado cônico, abrigava o sino, cujas badaladas ecoavam, eminentes.

Arlequin, voltando sua atenção para as pessoas transitando pouco abaixo, notou que algumas o olhavam com estranheza. Estranheza virou assombro quando ele sacou seu maço de cigarros e de lá tirou um – o último – e o acendeu. A fumaça lhe encheu os pulmões e depois se encontrou com a brisa fria, sendo levada para a direção da qual ele viera pouco tempo atrás enquanto ele via expressões horrorizadas de algumas pessoas, homens, mulheres ou crianças. Ele entendia o assombro. Ele era um palhaço afinal. O que ele esperava?

Ele possuía uma resposta: esperava que fosse visto como mais do que isso.

Ele suspirou, pronto a levar o cigarro outra vez aos lábios, mas estacou antes que isso acontecesse. Lá embaixo ele a viu. Quanto tempo fazia? Aqueles cabelos negros demais lhe caindo sobre os ombros em uma cascata escura, mas reluzente como obsidiana. As vestes eram claras. Alvas. Ela não o vira. Ele não esperava que ela o fizesse. Ainda assim sentiu que estremecia, sentia que as palavras em seu interior, se é que isto era possível, falhavam. Apesar do tempo, dos anos, as palavras ainda estavam lá, repletas de esperança, mas também de medo.

Lembrou-se de anos atrás, quando aquele belo resto emoldurado em fios escuros estava diante dele, olhos também negros que o fitavam com afinco, quase capazes de lhe perfurar a alma. Ela viera a ele dizer que talvez não fosse certo prosseguirem... Não fora o dia mais sombrio de sua vida, mas via-se, desde então, sem amor, vazio e enfermo. Parecia sangrar continua e copiosamente. Exausto.

— Mas — ele se lembrava de ter dito — seu amor ainda corre em minhas veias, ainda me aquece. Me mantem vivo. Eu sei que posso ter estado distante, mas não estou morto. Não estou...

— Pierrot... — ela começara, mas a memória se fora em um instante, como a fumaça de seu cigarro minutos atrás. Arlequin se viu, então, desperto, mas a bela já se afastava, a multidão começando a minguar e a noite a cair, suas sombras agora caindo mais espeças. Ao longe Arlequin viu relâmpagos, trovões poucos segundos depois.

Tragou do cigarro mais uma vez, o calor da brasa já lhe lambendo os dedos. Suspirou, assistindo a fumaça partir e as memórias tentando voltar. Anos haviam se passado e a voz dela ainda era tão vívida, o toque de seus lábios ainda tão presentes. Ele sabia quantas trevas havia em si, mas naqueles dias ela era a luz que amenizava a presença da penumbra. Era tolo, mas ele ainda a amava...

Ele deveria? Talvez não. Provavelmente não. Deveria apenas prosseguir. Ainda assim havia nele o desejo de conhecê-la melhor, visto que sentia que não havia feito isso como deveria. Queria conhecer sua essência e chafurdar nas vagas desta; se perder nas águas do mar que ela era. Em toda a sua beleza, todo seu brilho...

— Este é seu castigo, meu caro — ele disse para si, tentando soar conformado. — Seu castigo: ter o mais belo tesouro deste mundo e não poder tocá-lo. Ela está logo ali, mas... onde ela está?

Há quem diga que tal pergunta não faça sentido, mas não há quem diga que é impossível ser só na multidão.

O cigarro em seguida se apagou, as cinzas caíram sobre o toldo e foram levadas pelo vento que ganhava força. Se apagou, seu calor definhou assim como a esperança de Arlequin – lhe escapando por entre os dedos feito areia. E, então, indo-se a esperança, permanece o desespero.

Permanece o pandemônio em calma alma. Calma, mas onde os sentimentos são perturbadoramente ruidosos. Há o amor, mas mentiras se entrelaçam a palavras de afeto. O relógio da vida, um cacofônico pêndulo, muda, permanecendo as mesmas malditas memórias. E, apesar de tudo isso...

— Eu ainda a amo — ele concluiu ao sentir os primeiros flocos de neve recomeçarem a cair. Frios. Tão frios. — Temo as falhas. Há este medo, mas ele parece incapaz de extinguir a saudade.

Arlequin, por fim, decidiu pelo banho, a exaustão e a angustia se abatendo sobre ele. Lá, enquanto a água o lavava, ela escorria em tons esbranquiçados, também em cinza e preto, o ralo engolindo o palhaço em si.

Cerca de trinta minutos depois Pierrot descia para o restaurante. Olhos o fitaram, mas como se não o tivessem visto antes. De fato não o haviam visto, de certa forma. Haviam avistado um palhaço em vestes quadriculadas em preto e branco, trazendo duas malas consigo. Agora viam um rapaz que calçava sapatos pretos, suas calças sendo da mesma cor, um belo paletó escuro – sobre uma camiseta mais clara – embora não preto ou requintado, lhe protegeria braços e peito da friagem da noite que prometia trazer mais neve. Os cabelos pretos fartos ondulavam graciosa e naturalmente. Longos, mas longe de chegarem aos ombros, adornavam as expressões do rosto jovem, mas melancólico do rapaz.

Pierrot ignorou os olhares e procurou um lugar e lá se sentou. Escolhera uma mesa com quatro lugares à beira da janela, de onde ele podia ver a neve continuar a cobrir as ruas.

— O que vai querer, jovem senhor?

Pierrot se virou de súbito, sobressaltado com a recém chegada presença do garçom; um homem que parecia estar chegando aos seus quarenta anos. A vestimenta era simples, mas elegante, se tratando de caças pretas e uma camisa social branca. Vestes leves permitida pela presença certa de um aquecedor no local.

O homem não repetiu a pergunta. Pierrot, então, agarrou o Menu que apenas agora notou ante ele e o folheou. A presença do garçom logo tornou-se incômoda, deixando o jovem nervoso – nervoso o bastante para que se visse incapaz de escolher.

— Me sugere algo?

— Temos, especificamente hoje, um macarrão que ficaria ótimo se acompanhado de uma taça de vinho — disse o homem. — O senhor também poderia escolher algo para a noite que prossegue esfriando, como uma sopa de legumes...

De tudo o que o homem sugerira o que saltou em sua mente foram as palavras “taça de vinho”. Isso fez com que ele optasse pelo macarrão, ainda que a sopa tivesse lhe soado atraente.

O homem saiu. Pouco depois um rapaz – pouco mais jovem que o próprio Pierrot – se aproximou com uma travessa prateada reluzindo, logo depositando uma travessa menor com várias torradas. Um leve aperitivo. Pouco depois depositou um recipiente menor, ainda lacrado, onde Pierrot pôde ler o nome “Bresso”.

Ele franziu o cenho, cético, enquanto uma torrente de lembranças lhe vinha à mente. Ele não quis dar espaço a elas. Buscou agir como se elas não estivessem lá, à espreita. Sem pensar demais ele alcançou o queijo, rompeu o lacre, o destampou. O cheiro lhe chegou inevitável – fazendo sua boca salivar e seus olhos marejarem – enquanto ele também alcançava uma das torradas e com uma espátula que descobrira junto da travessa passou o queijo nessa e comeu.

Era delicioso, como lembrava que era. Porém, ele não foi capaz de não sentir também um gosto levemente salgado no canto dos lábios, constatando que uma solitária lágrima conseguira escapar de seu controle. Em um mero instante estivera absorto e ela lhe escapara. Mas quão absorto alguém deveria estar a ponto de que lágrimas não sejam notadas? Ele não tinha uma resposta. Tudo o que lhe acometia era colheita de semeaduras passadas. Isso, ao invés de uma resposta, lhe trazia outra pergunta: ele seria capaz de dizer adeus à tudo aquilo – fosse bom ou ruim – que havia o transformado em quem ele atualmente era?

Pierrot suspirou, a garganta desejando trancar enquanto ele decidia não se render ao pranto; enquanto ele sondava seu interior em busca da resposta que ele sabia que deveria encontrar, mas, até então, não conseguia fazê-lo.

Alcançou mais uma torrada. Repetiu o processo enquanto aguardava o prato principal. A pequena e ressequida fatia de pão somada ao queijo formavam algo ótimo, claro. Todavia, infelizmente, aquela acabara sendo a refeição mais triste, e mesmo mais amarga, que já tivera.

Felipe R.R. Porto

terça-feira, 9 de maio de 2023

Solidão - Capítulo 5 : Canção Em Louvor À Indiferença

É dito que o ser humano é uma espécie intrinsicamente social, mas e quando isso falha? E quando a necessidade de se associar parece minguar e associar-se soa como se para salvar-se de cair em um abismo fosse preciso agarrar-se, não a uma corda, mas a longos ramos espinhosos? Às vezes soa melhor cair.

        Na distancia Arlequim já avistava a pequena cidade. Ele agora cruzava um pequeno arvoredo. Árvores de copas fartas timidamente quase tocavam-se e formavam um túnel que, devido ao tempo nublado, era estranhamente escuro para aquele horário. A noite ainda demoraria um pouco para chegar, no entanto.

Arlequin parou nas sombras, pensando em prosseguir ou não. “Cá estou”, pensou. “Um ser social, mas não criado pela sociedade ou para ela...” A conclusão era que, o mais claro, era que o precioso sentimento de socializar já havia partido logo cedo. A solidão o fizera quem era. Ela o criara, em verdade. Dela ele nascera. Houve momentos onde ele tentou abandonar isso, este sentimento, e ir em direção oposta àquilo que parecia ser natural a ele. Ele tentou escapar da solidão... e neste trajeto ele viu que perdia também a esperança que uma vez tivera. Na verdade isto era conclusivo, visto que a esperança é uma luz brilhando em meio a densas trevas e não o inverso. Pessoas não sentem veementemente a coragem quando não há ameaças, mas quando estas existem. Do mesmo modo a esperança opera, sendo um farol em meio a um tempestuoso mar.

A esperança se fora, deixando um sentimento de frieza. Arlequin sentia-se clamando por algum calor. Algum amor? A voz que pedia isto logo se silenciava dentro dele, deixando-o apenas com um estranho sentimento de que era vão, era tolice, esperar por isso. Seria mesmo?

Lembrava-se de sonhos, mas mesmo os sonhos, tão imersos em realidade e em verdade, tornavam-se pesadelos e lá, nos sonhos, ele fugia. Contudo, em algum determinado momento, de forma eminente, sempre vinha a queda. Feito sombria nuvem maus presságios pairavam sobre ele, enquanto por dentro o que ele encontrava era o vazio. Não havia nada dentro daquela jovem, embora sofrida, casca humana. Não havia vida e o infortúnio lhe segurava firme a mão, não lhe deixando seguir sozinho...

Arlequin sentiu o cansaço se abater sobre ele. O desanimo o fez recostar-se em uma árvore. Pouco depois uma charrete ruidosa passava por ali, rumo à cidade. Um homem, sua esposa e duas crianças (uma menina e um menino), provavelmente seus filhos puxados por dois cavalos de pelo escuro. Apenas as crianças, com seus doze anos talvez (a menina parecendo ser a mais velha), o viram, mas apenas o viram, sem manifestar-se a sua mãe ou a seu pai, este último mantinha-se centrado e  agarrava firme as rédeas. Logo o som do leve trotar não chegava mais aos ouvidos do exausto jovem à sombra do arvoredo.

O coração de Arlequin pulsava forte, ansioso. Não, havia medo, uma gélida e persistente teia de medo na qual ele se via emaranhado. Lamentou, então, as palavras das quais há pouco se lembrara, as promessas que fizera.

— Mal consigo existir — ele lamentou audivelmente — , que dirá prosseguir?  O que há para mim é apenas a indiferença, o viver na morte do esquecimento. Sou apenas um uma criatura do tédio, aquela péssima piada em uma sala de espera... Aquele que ninguém quer ouvir ou que ninguém estará lá para ouvir...

É sabido que os românticos são os mais sofredores sobre esse mundo. Tão sensíveis e sonhadores; sonhando seus belos sonhos inflados em amor. Ai destes, pois o lugar deles – ou de maioria deles – é no passado. Muitos já se foram e jazem em tumbas frias e sua poesia é lida por poucos em páginas lúgubres ou em suas lápides mais fúnebres ainda.

O mundo não estava pronto para eles, por isso a vida, a jovialidade, deles fugia, visto que seus olhos não mais viam aquilo que os demais passaram a ver. Eles reconheceriam a beleza de uma obra de arte, enquanto outros apenas as utilizariam como algo para embelezar seus cômodos cheios de riquezas, mas vazios de amor. “Pobre destes”, Arlequin pensava, mas algo não era mais tão inovador, “que apenas tem dinheiro”.

— Contudo — ele disse por fim, hesitante, voltando os olhos para cidadezinha à frente, não mais tão cativado em prosseguir — eis aqui um destes que tanto sonhou com o amor! Vejam! Contemple, respeitável público! — ele colocou um sorriso no rosto, um que ele sabia que convenceria a muitos, mas logo se viu deixando o sorriso morrer, seu semblante cair. — Eu busquei o amor. Sonhei com ele. O senti, mas como uma maldita e horrenda semente, o amor brotou e quando desabrochou... encontrei apenas medo. Apenas medo.

Felipe R.R. Porto

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Solidão - Capítulo 4 : Servo De Um Fantasma

Ainda sentado Arlequim alcança um pequeno compartimento ao lado de sua mala. Sua mão desaparece dentro deste, ele o remexe até encontrar o que procura. Segundos depois está com um cigarro nos lábios. Ele traga e suspira, a fumaça logo carregada pelo vento. Já se perguntara se aquilo, o habito de fumar, possuía para ele um sentido dúbio: o acalmava... e o matava. “Talvez”, pensou, sentindo alguma calma o tomar quando soltou a costumeira fumaça pela segunda vez.

Procurou ter a mente fria. Mantê-la calculista, ainda que ela relutasse. Se examinou e, como há pouco, constatara que estava perdido, servindo a duas vozes. Não sabia dizer se eram as vozes do passado e do presente, do passado e do futuro. Talvez não se tratasse de nenhuma das possibilidades. Talvez se tratasse de quem ele um dia fora e quem ele seria se fosse conivente com os padrões que o cercavam. Talvez. Ele sabia, porém, que haviam duas vozes lhe falando à consciência, lhe sussurrando aos ouvidos.

Talvez... tudo soava como um grande talvez. No entanto ele estava pronto. Ele ouvira alguém. Ou ninguém. Uma das vozes, no final, lhe será útil e verdadeira. Percebeu-se, neste instante, como sendo servo de um fantasma – de um espirito. Dependente dessa forma ou dessa deformidade. Alguém que, de qualquer forma, ele esperava que estivesse lá.

Havia a dor, mas ele buscava sobrepujá-la, estar acima desta, não permitindo que lhe ditasse as direções, não lhe ditasse também suas emoções. Já sofrera em demasia por isso.

Porém, ao mesmo tempo, para chegar a algum lugar – a algum lugar diferente – ele deveria correr o risco. Sem riscos, era bem sabido, não se chega a lugar algum. Não obstante, manter-se estagnado também se trata de um risco.

Mesmo, então, para batalhas, lutas que exigissem muito dele, ele estaria pronto para elas.

“Saque sua faca”, uma das vozes, no entanto, pareceu lhe dizer de forma desafiadora. “Fira sua alma e esteja preparado para ouvir seus gritos, beber do sangue a verter . Por fim, aproveite o momento!”

No entanto, ainda que essa decisão lhe tivesse acometido, seus olhos o obrigaram a notar algo: ele estava sozinho. Completamente sozinho. Estes mesmos olhos pareceram feridos por isso. A persistência que foi a bandagem que ele utilizou sobre estes olhos a fim de que ele pudesse ao menos prosseguir.

Arlequim se lembrou de um de seus momentos no velho trailer que fora levado pelo circo e seria dado a outra pessoa. Lembrou-se de uma vez em que, antes de maquiar-se, fitou o espelho. É óbvio que ele vê a si mesmo neste. Entretanto, fora doloroso.

“Você não passa de uma prostituta para essa vida, não é?” Não demorou para que aquilo que lhe doesse. Ele se lembrava de ter varrido toda a maquiagem e apetrechos ligadas a essa para o chão – o mesmo chão no qual ele caiu ajoelhado e lágrimas lhe desciam pelo rosto destruindo o trabalho, ainda que pouco, que ele havia feito.

Ainda que vagarosamente, ele começava a entender o que acontecia. O que a vida era.

Ele recordou de ter se levantado. Fitara o espelho outra vez. Fitara a si mesmo outra vez. Era ele e ninguém saberia disso mais do que ele. Ainda que estivesse vestido com suas roupas para o espetáculo da noite que se avizinhava ele era capaz de se enxergar perfeitamente. Nu. Suas vergonhas, suas falhas, seus medos e dores, assim como suas virtudes. Estas últimas, para ele, eram quase questionáveis. Se apenas ele via sua honestidade, sua generosidade e sua fraternidade como virtudes, como saber se realmente o eram? Como ele definiria isso? Há um padrão? Algo que mostre a direção...?

Ele se desvencilhara desses pensamentos. Não precisava deles agora. Intentava se focar naquela noite e nela apenas...

... naquela noite onde ele revidara as vozes. 

— Me mostre sua carne — ele havia dito para a figura no espelho. Era ele, mas também não era. Era ele, mas também eram aquelas vozes... o estranho fantasma ao qual ele inconscientemente, ou às vezes conscientemente, servia. — Corte-a. Quanto a mim? Sim, violente essa alma, beba do néctar que ela verter e a fertilize. No entanto, saiba de algo: não posso me livrar de você... mas você também não pode se livrar de mim! — Arlequim baixou os olhos para as próprias mãos. Eram realmente dele? Voltou os olhos para o espelho e o olhar que recebia, que lançava, era firme. — Como você grita em minha mente eu gritarei dentro da sua. Vou estraçalhar esse seu maldito crânio de dentro para fora. Sua dor, seu ódio... eu vou senti-los. Suas feridas... eu as abrirei e farei com que sangrem novamente!

Eram promessas! Ou não eram? A quem? A si ou àquele que pensava não ser ele, ou quem desejava que não fosse ele...?

Ele continuou fitando o espelho. Fitando as formas da pessoa que lá enxergava. Era ele, e sentia que também não o era. Apesar das vozes existirem, elas eram apenas ele. Apenas ele, pois estava sozinho. Completamente sozinho. A não ser por si mesmo. Pois podia dizer ao reflexo que se fosse, que o deixasse em paz, mas isto não aconteceria. Qualquer pedido receberia um não, ainda que o tempo tivesse passado e o próprio Arlequim não tivesse cumprido com as ameaças que fizera.

A única verdade, até então, é que fora ele seu maior enganador. Fora ele próprio o Judas que o traíra. Ele se punira e acabou sangrando pelas escolhas que fez contra si mesmo. Contra si mesmo. No entanto, dentre as maiores verdades já ditas neste mundo uma que merece ser sempre lembrada é que cada um é o pior inimigo de si mesmo. No fim, talvez, todos queiram apenas se punir pelo sofrimento que infligiram a si próprios.

Seria um massacre sangrento e hediondo se as coisas fossem simples assim. Não são, todavia. Embora muitos queiram. Embora o próprio Arlequim quisesse isso em momentos.

Ali, mesmo sozinho, como naquela lembrança ele se levantou. O cigarro, qual ele mal fumara, acabara se consumindo e as cinzas precisavam apenas do costumeiro “peteleco” para caírem. Precisava continuar. 

Logo nevaria.

Felipe R.R. Porto