segunda-feira, 4 de março de 2024

Inferno - Capítulo 3: Envolta em Resplendor


A próxima lembrança de Pierrot foi novamente preenchida com escuridão, mas uma que não se prolongou, pois quase que automaticamente houve luz e as sombras se recolheram para esconderijos que ele não podia ver. Estava claro, mas não claro como antes. Era o mesmo quarto, mas apenas uma luz tênue permanecia. O suficiente para que o paciente ficasse confortável e o suficiente para que este pudesse, de quando em quando, ser observado.

Estava sozinho. O estranho sonho ainda lhe pairava na mente como nenhum outro jamais o fizera. Ainda conseguia ver a estranha figura alada. Seus olhos nos dele enquanto ela o deitava e chorava por isso... O que significava? Aliás, sonhos significam algo que não aquilo existente no subconsciente?

Os pensamentos de Pierrot foram interrompidos quando a porta do quarto foi aberta e uma mulher entrava, mas parou assim que viu que ele havia acordado. Era uma enfermeira, a qual logo refez seus movimentos, se retirando, mas deixando a porta entreaberta indicando que logo retornaria e provavelmente acompanhada, supôs ele.

Seu corpo doía, provavelmente pelo repouso excessivo, que levara seus membros e músculos a relaxarem. Soube também que havia descansado tempo o suficiente, pois não havia nele nada que pudesse fazer com o sono o acometesse outra vez.

A porta, então, se abriu completamente e Pierrot se viu prestes a falar com a enfermeira, mas não pode prosseguir com isso. Não era ela quem retornava.

Ele se calou e mesmo aquilo que estivera prestes a falar fora varrido para os mais profundos recônditos de sua mente. Um lugar tão profundo que ele ainda veria dias se passando até que se lembrasse...

A figura recém-chegada tornou a fechar a porta, em seguida deslizando até seu leito. Vestia uma camiseta branca e uma saia preta que lhe conferia uma postura extremamente madura, ainda que fosse aparentemente jovem. A camiseta possuía rendas nos punhos das mangas e no colarinho. Os cabelos longos eram como um manto negro contornando o rosto onde os olhos eram tal qual claras esmeraldas perfeitamente trabalhadas. Pierrot teria duvidado da existência de um ser tão belo se não o visse, mas ele via. O rosto e a vestes, em sua brancura, eram uma espécie de sol naquele quarto. Se houvesse uma tempestade esta seria expulsa pela mera presença de mulher tão radiante.

Se esta tempestade fosse composta por suas palavras; se as palavras fossem as nuvens tempestuosas... elas haviam se ido. Só havia o silêncio. A contemplação.

— Eu não sou um fantasma — falou, então, a mulher, se sentando em uma poltrona ao seu lado. A voz era firme, mas dura, quase langue. — E também não sou uma enfermeira ou algo assim. Isso se você, como eu, não gostar de ambientes hospitalares...

— Não. Eu... — Pierrot apenas começou, oscilando entre dar uma desculpa e não ter o que dizer.

— Foi apenas uma piada, Pierrot — disse ela, sorrindo. Um sorriso que fez seu peito queimar. — Você provavelmente entendeu isso, mas por alguma razão ficou nervoso. Não fique. E também, daqui em diante, trate de evitar ficar tempo demais na neve sem estar devidamente agasalhado.

O ator e músico circense se sentiu ridículo naquele instante, diante daquelas palavras. E um idiota.

— Você vai receber alta hoje — ela avisou. — Vou te deixar no hotel onde se hospedou dois dias atrás...

        — Dois dias?

— Teria sido mais tempo se o socorro não tivesse vindo a tempo.

Seus olhos tentaram se encontrar com os dela, mas se desviaram em seguida. Pouco depois, ele arriscou enfrenta-la. Enfrentar aquele olhar apenas para perceber que ele parecia tão perspicaz quanto qualquer outro. Era como se ela fosse capaz de sondar as profundezas de sua mente, do seu coração. De forma semelhante ele foi tragado para o mar esverdeado que eram aqueles olhos.

Por um momento se viu navegando naquelas ondas, atraído por tão perfeito semblante. Se entregara sem nenhuma resiliência, sucumbindo àquela estranha. Sem sequer saber o seu nome.

— Suas roupas estão no canto — ela indicou com os olhos, a voz solene. — Se vista e logo volto para te buscar.

Ela se levantou ele se viu cheio de admiração, mas logo se repreendendo.

— Muito obrigado por tudo o que fez, mas não precisa fazer tanto.

— Não se preocupe. Vou para o hotel também. Não será um incômodo.

Aquilo o fez se calar e ele se viu entristecido por isso.

— Eu não vou embora hoje — ela disse e sorriu, se divertindo. — Não fique tão triste assim.

Está tão óbvio assim? Ele se perguntou, tendo sido tomado por uma vergonha súbita, mas que feneceu levemente quando a mulher saiu. Óbvio ou não era a verdade. Ele não gostava da sensação, da possibilidade de se sentir atraído por alguém que mal conhecia. Alguém que sem esforço o fascinou, o envolveu. Tal qual a mulher em seus sonhos ela, como se tivesse asas, as abrira sobre ele e o mero estar ali era como um poderoso, embora doce, imã atraindo uma pequena lasca de ferro.

Pierrot se levantou vacilando um pouco. Estar deitado um longo tempo talvez fizera com que suas pernas se esquecessem um pouco de como era andar. Logo chegou ao lugar apontado vendo que não eram suas roupas que estavam ali, aquelas que ele vestira na noite do ocorrido. A mulher provavelmente fora ao hotel e tratara de pegar sua mala. Por instinto ele procurou seu violino, logo percebendo o costume que se instalara nele.

Se passou mais de uma hora até que houvesse batidas na porta. Pierrot autorizou a entrada. Era a mulher de antes, agora munida de um casaco visto o frio que certamente fazia lá fora. Vê-la era deslumbrante, algo capaz de acender as velas das escuras Galerias do seu âmago. Seu peito ardia e seu coração galopava diante da perfeita imagem. Percebeu que havia segurado a respiração. Desde quando havia se tornado tão suscetível à beleza de uma mulher? Desejara intimamente sucumbir a ela, entregar-se, mas ele nada sabia. Não a conhecia. Que tolo seria se tão já lhe acabasse desnudando a alma aos domínios da desconhecida. Isto não seria sequer uma tragédia. Seria idiotice. Não?

Ainda que ela o atraísse, lhe soava inalcançável estar com alguém como ela. “Isso sim é algo que poderia ser chamado de sonho”, ele pensou, enquanto tomava sua mala e se aproximava dela, seu coração acelerando com esse simples ato.

— Está pronto, suponho — disse ela. Ele apenas fez que sim. Ela assentiu em resposta enquanto se virava e se dirigia à porta.

— Eu ainda não sei seu nome — ele disse quando já andavam pelos corredores com o típico cheiro hospitalar.

— Elodia — ela disse simplesmente.

— Me desculpe?

— Me chamo Elodia, Pierrot.

Ele franziu o cenho.

— Elodia... como a deusa Elodia?

Ela olhou para ele.

— Sim, como a deusa — ela disse quando passavam pelas portas de saída, voltando ao mundo vestido do frio e alvo manto de neve de antes, mas estava claramente mais espesso. Elodia lançou sobre si o casaco que trouxera.

Ela os conduziu a um carro pouco a frente, um sedan negro, facilmente se destacando na paisagem – qual chamou a atenção do jovem. Não era o hospital da sua cidade. Olhou ao redor para ter certeza disso, vendo os prédios se elevarem cada vez mais em todas as direções que pudesse observar.

Elodia, ou quem quer que fosse, o trouxera para um hospital que não era o de sua cidade. Aquilo o fez pensar que havia anos não ia até lá. Porém, não lamentava por isso. Pelo contrário.

A esbelta mulher se dirigiu à porta do motorista e Pierrot à do carona. Não conseguiu evitar um sorriso sarcástico, apesar de tudo o que se passara.

— O que foi? — Elodia perguntou, certamente tendo notado o sorriso. Um sorriso levemente descontraído lhe brotando nos lábios, o calor aquecendo o peito de Pierrot em seguida.

— Nada de mais — ele disse. — Mas não é todo dia que tenho a oportunidade de pegar carona com a Deusa do Amor.

Ela balançou a cabeça diante da piada que ele mesmo percebeu sendo péssima. Aliás, ele sabia que era. Porém, não acho que teria mal em responder a pergunta.

— Espero que seja uma boa experiência — ela disse quando já estavam dentro do carro, os cintos sendo postos.

— Bom, não vejo razão para não ser...

— Talvez pelo fato de você não ter mencionado a segunda parte do meu título — ela se divertia, adquirindo um tom soturno enquanto concluía: — Deusa do Amor... e da Morte.

Pierrot, ainda que alguns que fossem ver a situação como macabra, sorriu com a conclusão.

Ela deu a partida e logo estavam cruzando a cidade, pouco depois a deixando e se lançando em uma rodovia que os levaria de volta. “Elodia”, ele pensou no nome. Sentiu vontade de dizê-lo em voz alta como se para saboreá-lo, mas não. Não podia. Não deveria se dar esta oportunidade, pois temia saber onde ela o levaria. Deveria deixar as coisas como estavam antes de ela chegar: ela envolta em seu resplendor e em gloriosa aura e ele, esquecido e irreconhecível, na escuridão de sua existência.

Felipe R.R. Porto

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Inferno - Capítulo 2: Gabinete dos Sentimentos

        


        Pierrot despertou em um sobressalto, as coisas que vira no estranho sonho (ou pesadelo?) ainda presentes demais em sua mente.

Estava em um local escuro o que, devido ao que se recordava do sonho, o fez seguir imaginando a narrativa Dantesca. Relembrou O Limbo, o local destinado aos pagãos ditos virtuosos. Lá tudo era a mais plena escuridão. Lá não haveriam os horripilantes gritos de dor das almas. Lá, ainda que em dor, só se ouviria seus suspiros...

Quanto do que se lembrava era sonho? Quanto era verdade? O frio? A angústia? Aquela mulher... realmente a vira? Não sabia dizer, visto que pouco depois sua consciência o abandonara. Ele chegou a crer que não fora apenas a consciência, mas tudo o que era, tudo o que o mantinha vivo.

Creu que seria tragado para a imortalidade. Para o além. Não o fora, porém.

Havia retornado. Continuava no mundo qual chamava de lar. Se ele chegou a ser apenas uma “alma”, agora tornava a ser uma “pessoa”. Não iria para as regiões etéreas quais olhos humanos não podem ver – não podem contemplar.

Seus pulmões se encheram dolorosamente enquanto respirava. A dor. Certamente fora aquilo que o levara até ali, onde se encontrava. Pensou se seria o cigarro, mas concluiu que seria equivocado acreditar nisso. Fumava, mas não tanto e também não há tanto tempo. Certamente que fora alguma outra coisa.

O frio. O Inverno... mas principalmente aquilo que o fizera permanecer lá, congelando.

Os olhos do rapaz estavam abertos, mas muito pouco era visível. Era um quarto, ele não teve dificuldade em concluir, mas não se importando em se ater aos detalhes do lugar. Havia algo mais urgente, algo que insistia em lhe tomar a mente: estava vivo. Era uma conclusão extremamente simples, mas que estava tendo um efeito inesperado sobre ele.

Desejara morrer nos últimos anos. Assim, ele pensava, findaria suas angustias. No entanto, ter “ido e voltado” – ele não se sentiu mal por pensar assim – lhe acendera o desejo de viver novamente.

Ali estava ele, em seu escuro e estranho Gabinete Dos Sentimentos. Sim, de fato poderia tratar o local assim. Tanto sentira ali em alguns poucos minutos. Tanto já havia pensado ainda que não tivesse sido tragado para uma reflexão longa e cansativa. Houve medo, houve dúvida. Houve angustia, dor e uma torrente de lembranças. E houve alívio. Houve mais, tudo se unindo e o fazendo pensar, pensar e pensar... Não era necessário ter mais tempo do que tivera. O mero sentir das ondas lhe chegarem aos tornozelos já era evidencia o suficiente de que o mar estava diante de si. “Eu estou vivo”, ele pensou e foi sua última lembrança antes de ser tragado por um sono inesperado, mas que aceitou de bom grado, se entregando à atração deste.

Quando despertou o local, seu Gabinete, antes escuro agora estava iluminado o suficiente para que seus olhos doessem. “Escapara d’O Limbo?” Sua mente automaticamente exigiu saber, ainda mantendo Dante em vista. O local possuía paredes claras demais. A luz que pendia do teto parecia ser refletida por estas, fazendo com que visse borrões em padrões de branco e azul translucido. Uma forma vestida de branco estava à sua direita. Um médico? Aquilo o fez lembrar-se de um sonho. Aquele estranho sonho que tivera dias atrás, onde morria sem que ninguém o ajudasse. Um grito de ajuda sentenciado a não ser atendido...

Os olhos de Pierrot, já acostumando-se ao ambiente, deixaram a figura agora já óbvia do homem revelado ser de mais idade e migraram para uma de vestes escuras á sua esquerda. Possuidora de uma beleza quase desumana e de olhos verdes que o fitaram naquele lugar de um branco reluzente.

E renuncia.

Seus olhos novamente se fecharam, a escuridão da inconsciência caindo sobre sua visão, engolfando tanto o médico quanto a mulher de traços suntuosos... e ele sonhou com ela.

Lá, em seus sonhos, uma paisagem escura à beira mar, como se aquelas águas estivessem iradas e, em breve, após a preparação, ondas terríveis fossem vir sobre os litorais. Pierrot estava descalço, os pés afundando levemente na areia anormalmente fria. Seus cabelos ondulados à influência do vento.

Um vento que parecia gemer.

Naquelas mesmas areias, alguns metros à sua direita, ele avista uma forma feminina trajada de vestes tão negras quanto a noite abandonada pelo luar e ainda encoberta por espessas nuvens.

Ter despertado trouxera a Pierrot alguma esperança, mas ali, diante dela, era como se esta mesma esperança fosse tragada. Era como as ondas que vinham e na volta levavam, pouco a pouco, algo consigo.

Ele sentia o mesmo quanto àquela pequena luz antes bruxuleante em seu coração. A vela antes evanescente agora ele descreveria apenas como fraca. Pequena, mas não diminuía ou ameaçava se apagar.

Ela, aquela Escuridão, aquela figura, parecia almejá-la também.

Ela, a Escuridão, era tal qual a morte perante os homens, perante a vida. Ela tiraria suas esperanças e deixaria, após também retirar a luz, tudo envolto em surda penumbra. Esperança e Luz. Ela se alimentaria dele e viveria, viveria e viveria. Aquela estranha figura, cuja escura aura intentava juntar-se às enferrujadas nuvens acima, queria vida. Talvez, como maioria dos que ele conhecia, vida eterna.

Nos olhos dela, enquanto os ventos lhe provocavam calafrios, Pierrot percebeu-a ciente quanto a seus efeitos sobre ele. E percebeu mais: ela queria que ele soubesse quem ela era. Quem ela verdadeiramente, intimamente, era. Algo o fez sentir que, estranhamente, ela não quisesse lhe ferir ou fazer mal. Como saber? Como chegar a tal conclusão depois de tais imagens?

Ela, a Escuridão, qual teria sido capaz de fugir dos gloriosos raios do Sol e deles teria se escondido. Confiaria nela? Ela, que, na sequência daquele sonho perturbador, desfraldou ardentes asas e se ergueu naquela paisagem pintada com cores escuras – como uma pintura feita sobre uma tela já cinzenta. Ele, por um momento, olhou na direção das ondas, seu olhar como o de quem vê algo ao longe... Pierrot acompanhou-a, ainda que estivesse com seus pés sobre a areia e ainda que fosse provavelmente impossível avistar o que ela avistava. Ela pousou sobre rochedos contra os quais as ondas arrebentavam.

Ele quis ir até ela. Quando perto ele sentiu medo, temor. Dúvida. Agora que ela se afastara, ainda que pouco, ele se via atraído por ela. Sombria, mas de alguma forma radiante como as estrelas e ele, naquele sonho, se viu incapaz de resistir ao impulso de buscar alcançá-la. Assim, imerso no sonho surreal, Pierrot achou-se sucumbindo àquele singular irradiar...

...e pouco depois ele, ainda sem saber como, estava nos braços dela. Ela chorava enquanto o deitava nas areias frias daquele litoral.

Os olhos dela – marejados olhos – eram verdes. Ali, então, ela o deixou antes de tudo escurecer outra vez.

Felipe R.R. Porto

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Inferno - Capítulo 1: Intro

Pierrot estava de volta ao parque, a grande tenda do circo assomando diante dele. O clima não havia mudado. O vento continuava soprando forte e frio, dizendo que a pouca neve que cobria o gramado agora logo seria substituída.

Instintivamente ele apertou os punhos, alguns de seus deos estralando diante do esforço, mas não eram as bolas de malabarismos que trazia consigo. Ergueu as mãos e lá estavam seus violino o arco. Os fios de crina tremeram brevemente ao vento, zunindo de leve. Também estava com as roupas do “Arlequim”.

Aquilo era estranho.

Olhando novamente para a enorme armação coberta diante dele notou que a entrada se abria - as lonas se abrindo, se recolhendo para os lados. Era um convite. Era um pedido para que adentrasse o lugar. Havia uma abertura, mas ele não via nada mais. Não ouvia nada. Além da lona havia apenas escuridão e o silêncio. Era como a típica armadilha que um predador camuflado faria a sua preza.

Era esperado que ele entrasse.

Ele não o fez, porém.

Se colocou a caminhar pelo parâmetro do parque que ele tão bem conhecia, mas se deparou com o local totalmente deserto. Os trailers repousavam em requintado silêncio. Pensou em tentar entrar em um deles, mas viu-se parando. Se seus colegas estivessem mortos? Ele queria ver isso? “Tolice”, logo pensou, concluindo que a probabilidade de isso ter acontecido a todos era inexistente.

Decidiu-se por ignorar os trailers.

Alcançou as delimitações do parque quatro vezes, tendo ido para Norte, Sul, Leste e Oeste. Cruzou-o quatro vezes, concluindo que em todas as direções ele apenas encontrava a mesma quietude incômoda. Em todas as direções apenas o horizonte sem fim e acima o céu com nuvens quais eram como se tivessem sido feitas de pedra lascada. Frígidas. Prestes a cair pesadamente e esmagá-lo.

Tudo familiar demais. Tudo frio demais. Tudo, ele decidiu por fim, doloroso demais. Quantas alegrias tivera naquele lugar? Poucas. Quantas tristezas...? A resposta era diferente. Talvez ele estivesse sonhando. Talvez fosse uma espécie de Inferno apenas dele. Mas... o que viria a ser um inferno? Fogo? Tormento? Como classificar o que seria um tormento? Certa vez lera que “a Terra é o único Inferno que aqueles que iriam para o Paraíso conheceriam. E a Terra é o único Paraíso que aqueles que iriam para o Inferno conheceriam.”

Sim, de fato, aquele poderia ser um Inferno. O Inferno dele.

Ou não. Talvez, considerando Dante, fosse apenas O Ante-Inferno ou algo semelhante a este. Um local onde estariam aqueles que não iriam para os Céus assim como os que não iriam para o Inferno. Estremeceu, pois era horrível o bastante segundo lembrava, embora o que visse não chegasse a tal nível.

Após mais uma caminhada ele se viu no mesmo lugar de antes. Diante da entrada do circo. Desta vez, no entanto, ele pareceu ouvir algo. Como se alguém o chamasse... lá de dentro. Das sombras. Uma voz ínfima permeando o silêncio.

O que significava? Ele não sabia. Ele apenas saberia se a seguisse. Queria, porém, realmente segui-la? A resposta era um duvidoso, incerto não. Ainda assim, havia outra pergunta, para a qual a resposta também era não:

Ele queria permanecer ali?

Suas mãos novamente agarraram firmes aos violino e arco. Ele engoliu em seco, o coração palpitando, quando começou a caminhar na direção da escura tenda, tão silenciosa como uma cripta o seria.

Talvez, ele chegou a pensar, estivesse saindo do Inferno. Todavia ele não descartou a possibilidade de que, na verdade, estivesse adentrando ele.


Felipe R.R. Porto

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Satura - Capítulo 6: Chama Ao Vento

Começara a realmente nevar. A luz em alguns dos postes piscava.

Pierrot ainda ouvia o estranho silêncio. Tão incomodo e terrível silêncio. Quis saber até quando haveria de se prolongar.

Ele havia parado um tanto longe do hotel, de frente a uma loja com amplas vitrines, mas a escuridão no interior do estabelecimento fazia com que a grande peça de vidro se tornasse um imenso espelho. E ali estava. Parado... naquele grotesco silencio, mas inconformado com ele.

Uma voz solitária no vasto espaço silencioso.

Uma vela na vasta escuridão. Lembrou-se, fatalmente, da vela vista antes de deixarem a igreja instantes atrás – ele, inclusive, se perguntou a quanto tempo estivera parado ali, sendo castigado pelo clima em vias de se intensificar.

O ministro, sua mente o fez continuar a rememorar, havia fechado as portas do templo. A vela, assim, estaria a salvo. Não haveria mais esforço para resistir ao soprar do vento, não teria mais de lutar para que seu calor e luminosidade se mantivessem.

Pierrot não estava na mesma situação. Havia o vento e ele era a vela exposta. Kális, em sua mente, em seu coração, por tanto tempo sua luz pequena e preciosa também estava lá. Também uma vela, mas ela se apagava. A vela dela não suportaria aqueles ventos. Ela se apagaria...

O jovem decide se mover, mas quando o faz apenas se vê na vitrine. O estranho espelho formado pelo invisível e pela escuridão visível. Vê seu rosto jovem, mas cansado. Jovem, mas preocupado. Ele força um sorriso, uma força que o consome ligeiramente. Ele suspira fartamente, seu hálito quente embaçando a vitrine, onde seu rosto se torna apenas um borrão pouco a pouco desaparecendo à medida que ele dá passos atrás, virando-se, não tendo intenção de encarar-se outra vez.

Lá está o hotel. Ali estava Pierrot. Estático. Silencioso. Mudo. Uma figura no inverno e então há um chamado...

Por um momento ele se vê desperto, olhando à sua volta em busca da origem do chamado, mas seus olhos não encontram nada ainda que esperassem encontrar alguém, mas não houve sucesso. Ele esperou e esperou, ainda procurando, mas logo houve o silêncio novamente e, então, a solidão. Havia a esperança, mas há a sobriedade e, por fim, a renuncia a qualquer coisa que tivesse ouvido. Estava sozinho, tragado para uma funesta monotonia estática.

Não houve um segundo chamado. O vento, no entanto, soprou mais forte, um silvar choroso que perdeu-se penumbra adentro. Pierrot, que havia recuado diante da imagem do espelho agora se vira novamente diante desta, impelido pela reação mediante o vento repentino, obrigando-se a procurar abrigo.

Outra vez ele respira diante de si mesmo, sua imagem sendo outra vez embaçada. Minutos se passaram quando ele percebeu o vento sossegar, embora não cessar, e uma neblina chegar sorrateira pelas ruas; um fantasma translucido e rastejante. Mais um dentre os tantos fantasmas vistos naquela noite salpicada de cadentes flocos alvos, os quais se empilhariam a fim de erigir diversos monumentos disformes, anunciando e firmando o reinado do inverno pelos próximos meses.

Um sobressalto lhe toma quando ele vê, por cima do ombro, no reflexo, uma silhueta na neblina. Ele se volta, girando rapidamente nos calcanhares, a fim de escrutar a cortina esbranquiçada diante dele. E não vê nada. Um arrepio lhe percorre o corpo, tão vivido como se a fria brisa lhe tocasse o corpo nu. Não pôde deixar de sentir que alguém o observava. Mas talvez estivesse errado. Talvez fosse um fantasma. Outro. Seria apenas mais um visto dentro da já fantasmagórica neblina.

Havia nele o crescente anseio de que a tempestade realmente viesse avassaladora. Mas ela, por fim, não viera. Não ainda. Os ventos sopraram insistentes, mas apenas para trazer a neblina... e isso foi tudo.

Ali, havia apenas ele cercado de neve. Ele, uma vela que poderia ter sua chama, seu calor e brilho tomados pela neve que cobria tudo ao redor. Sua chama, em seu coração outrora tão aquecido, ameaçava falhar... Fraca, tão fraca.

Aqui, então, ela expira.

Aqui, então, o corpo cansado falha, se entregando ao frio. Derrotado pelo inverno, pelo silêncio. Pelo medo e pela solidão que tanto o açoitaram, o castigaram até então.

"A sátira perfeita", ele pensou antes de colapsar na brancura da paisagem.

Os olhos de Pierrot se abrem. Sua realidade, ou seu sonho acordado, não havia chego ao fim ao que parecia e seu corpo ainda desejava a vida – seu desejo de continuar viviam. Ainda que mais em sua carne e ossos que em sua alma.

Imóvel ele permanece sobre seu leito de gelo. Sentia as juntas começarem a doer, mas não se movia.

Era como se ainda estivesse esperando algo...

... talvez esperando o sol nascer.

Mas não há um sol, pois ainda é noite, embora ele não soubesse que horas eram. Contudo, há sim algo que brilha, reluz diante de seus olhos exaustos. Mãos tocam as suas. Mãos quentes tocam a suas tão frias e ele vê um rosto diante de si.

Não era o sol, mas irradiava.

A mulher sorriu, provavelmente diante da reação de alguém que talvez pudesse estar morto. Ela sorriu. Não um sorriso como o de Kális, mas que ainda assim pareceu cavar a carne de Pierrot como havia anos não acontecia... como ele achava que jamais fosse acontecer. Ou não tão logo.

Se a vela havia se apagado... agora tornava a estar acesa. Ou se esforçava para estar.

— Me chamo Elodia — disse ela sorrindo e Pierrot simplesmente se viu desejando que aquele sorriso, como se fosse divino, durasse para todo o sempre.

Que jamais se fosse.

Felipe R.R. Porto

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Satura - Capitulo 5: O Silêncio

Deixara a igreja pouco depois de Kális ter retornado. Uma vela bruxuleava ao vento quando cruzavam a porta. A mesma parecia, em momentos, que se apagaria, mas persistia.

A praça já se esvaziava e mesmo as ruas quais a acessavam tinham poucas pessoas. Pierrot não tinha um relógio consigo, mas temeu que ele e Kális houvessem demorado mais do que pensavam.

— Agora é hora de nos despedirmos — ela disse a ele quando saltaram do último degrau da escadaria, parando um de frente para o outro. Pierrot pode ver a porta da igreja se fechando. Aquilo lhe ofereceu estranho alívio, pois a forma como a vela quase se apagava o havia incomodado. Não queria que ela se apagasse. — Espero não demorar tanto para voltar a te ver.

Ele sorriu.

Ela sorriu de volta, um sorriso deslumbrante, qual ele sabia ser incapaz, ao menos no momento, de devolver a altura. Por sorte ela sabia disso.

— Também espero por isso.

— Cuide do “Pierrot” no interior das suas Galerias...

— “Cuidar” não é bem o que eu gostaria de fazer com ele.

— Mas pode ser o que precisa fazer — ela disse, se aproximando e o abraçando. Ele sentiu seu corpo se arrepiando e não foi de alegria. Dentro de si aquilo pareceu... doer? Ainda assim ele a envolveu em retribuição.

Aquilo fora o certo a se fazer, pois sentiu o mal estar esvair-se aos poucos. Não era sobre não gostar dela, ou sobre evita-la. Era sobre evitar o ser humano. Ele e ele apenas sabia o quanto evitaria a si mesmo se fosse possível fazê-lo. Sim, havia formas de inibir desejos, impulsos ou pensamentos, mas não era saudável. Poderia apenas prejudicar-se ainda mais.

— Se cuide também — disse ele. — Cuidado com seu coração. Suas perguntas lá dentro não me soaram apenas como perguntas aleatórias.

Eles se afastaram, seus olhares se cruzando. O dela estava levemente marejado. Pierrot se aproximou dela e segurou seu rosto – pálido rosto – entre suas mãos, puxando-o leve e carinhosamente para perto de si. De forma leve e carinhosa foi que ele lhe beijou a fria testa. Demoradamente.

Se afastaram outra vez.

— Ouvi uma vez que as pessoas frias tem os melhores carinhos — ela disse.

— Me considera frio?

Ela deu de ombros, ainda chorosa.

— Você não é “quente” como a maioria.

— Isto é um problema — lamentou ele, mas em seguida notou que ela balançava a cabeça.

— Não — ela disse. — Em você não.

Assim, sendo estas suas últimas palavras, ela começou a se afastar. Longe o bastante ela se virou, lhe dando as costas enquanto seguia para um grupo de pessoas. Sua família. Pierrot não os vira ali.

Ela se fora e, por um momento, ele se viu sentindo falta de que ela o tivesse tomado pela mão e o levasse consigo, como fizera outras vezes naquela noite.

Todos se foram e ele estava, outra vez, sozinho na praça. Apenas o vento lamentava, falando de suas tristezas às arvores que choravam emitindo o som das folhagens. Não havia mais canto na igreja.

Silêncio. Havia outros sons, mas, repentinamente, tudo pareceu silêncio para o jovem.

Ele não demorou em deixar a praça, qual agora usava um manto mais espeço de neve, o fazendo repreender-se por não ter notado o quanto a esta havia coberto da paisagem desde cerca de uma ou duas horas. Estivera realmente tão distraído assim? O manto cobria os telhados ao redor e as ruas viam-se alvas a não ser por onde veículos haviam passado durante aquela noite. Pierrot parou, fitou o céu por alguns segundos e recomeçou sua caminhada, refazendo o caminho que o trouxera até ali. Acima, contrastando fortemente com o branco abaixo, o céu era uma placa negra. Uma nevasca viria naquela noite e não seria fraca.

Passos rápidos logo levaram Pierrot para a rua do hotel onde se hospedara, ainda que tivesse ainda cerca de quinhentos metros a prosseguir até alcançar o mesmo.

Um vento frio soprou, fazendo com que arrepiasse. Cerrou os dentes a fim de que estes não começassem a bater diante da exposição à baixa temperatura. O arrepio o fez lembrar-se do último que lhe acometera, quando fora abraçado por Kális instantes atrás. Ele havia se repreendido quanto à sensação, mas a entendia. A entendia perfeitamente assim como entendia o frio que lhe almejava congelar o viscoso liquido quente que lhe fluía pelas veias. Involuntariamente havia cultivado dentro de si um sentimento de repulsa quanto aos seres humanos. Não por que não amasse as pessoas ou tivesse asco destas, mas por elas não se amarem mais umas às outras e tivessem nojo uma das outras...

...e isto se via cada vez mais. Um requintado ódio que mais e mais fluía pelos corações da humanidade. Uma doença que se espalhava livremente sem algum tipo de fronteira ou barreira, sem limites que a impedissem de prosseguir com o contágio por toda a linhagem – nobre linhagem – dos homens. A igualdade permanece sendo igualdade, mas há uma estranha divisão que separa raças na mesma intensidade em que sexos se diferem.

— Ah — lamentou Pierrot audivelmente, sua voz unindo-se ao frio lamuriar do vento —, repulsa que se revela mais e mais a este mundo...

Era a verdade. Pessoa nenhuma viu. Pessoa nenhuma ouviu. Logo ninguém falará a respeito. Há sangue pelas ruas, mas nada aconteceu.

Ninguém sabe de nada.

O que estava acontecendo? Ouvia-se com frequência do quão evoluído e racional era o ser humano em detrimento das demais formas de vida animadas. Pierrot tinha dúvidas sobre o que era ser racional para a maioria das pessoas. Ele não precisava pensar muito para afirmar, com certeza, que dentro da igreja na qual estivera há pouco haviam pessoas que mesmo tendo unido as mãos em oração diante de Deus não hesitariam em avidamente matar pouco depois. As mesmas mãos que se elevavam suplicantes em orações em favor da paz seriam as primeiras a acorrentar e fazer prisioneiros. As mesmas bocas que se abriam e clamavam por piedade seriam as primeiras a falar de culpa, as primeiras a julgar – não mostrando a misericórdia que tanto buscavam paras si mesmas.

Há quem vá falhar e morrer, assim como há quem vai viver. Há olhos que verão a estas coisas. No entanto, há olhos que haverão de apenas se fechar antes elas.

E o sangue continuará escorrendo, mais e mais. Não há quem queira interromper a torrente carmesim lhe persistente flui. Clamando pelas ruas assim como o rubro sangue do precioso Abel clamou a Deus. A diferença, contudo, reside no fato de que ninguém sabe de nada. Ninguém ouviu e, assim sendo, ninguém falará.

O que persiste é o silêncio.

                            O terrível e cada vez mais ensurdecedor silêncio.

Felipe R.R. Porto

domingo, 20 de agosto de 2023

Satura - Capítulo 4: Tentação

...mas ele não passaria por tudo aquilo novamente. “Prefiro morrer”, pensou ele, um tanto quanto amargamente.

— Já volto — Kális disse, um tom perene na voz, se retirando. Pierrot acompanhou-a com os olhos enquanto se juntava a um pequeno grupo no início do corredor pelo qual vieram. Não duvidava que fossem seus pais e familiares. Não duvidava também que vieram à sua procura para partirem e, havia uma boa probabilidade, para a repreenderem.

Pierrot deu as costas para a cena, voltando a ser imerso pelos pensamentos recentes.

Sua mente, naquele instante, buscava fitar o passado, mas este estava cinzento, como se uma espessa névoa lhe turvasse a visão. Era uma espécie de defesa que surgira com os tempos, anuviando sua perspectiva a fim de que não se ferisse. Um mecanismo.

Havia muito que ele mesmo gostaria de compartilhar com Kális, mas eram palavras duras que, mesmo o mero pensar o deixavam levemente nervoso. Não, aquelas palavras jamais deveriam ver o mundo. Deveriam permanecer com ele. Permanecer nele e, se necessário, ir para o túmulo quando seu corpo cansado finalmente para lá fosse.

Seu silêncio, então, era necessário. Palavras podem ser distorcidas. A serpente distorceu as palavras de Deus. Pierrot queria escapar da possibilidade de ter as suas distorcidas por humanos. Sim, Kális era sua amiga, razão pela qual devesse confiar mais nela. Correto?

Ele não tinha certeza. Não mais.

A conhecia bem demais. A maldita memória permanecia lá. A amizade é um belo laço, mas pode, em circunstâncias, se tornar um escudo inconveniente. O amigo sabe demais, conhece demais, mas quando a amizade se concretiza? Amizade é sempre estar junto? Amigos sempre concordam? Amigos... mentem? Ao longo dos anos o medo se enraizara vigorosamente em Pierrot tal qual uma planta parasita o faria a uma dríade, a adoecendo. Ele não conseguia evitar. Não era forte o suficiente. Não confiava. Todos os seres humanos, em sua ardilosa forma, em momentos soavam tal qual inimigos.

Amava a Kális, admitia. No entanto agora temia que tal sentimento fosse apenas uma cortina erguida por alguém que o apunhalaria através dos tecidos. Ele não perceberia o golpe vindo. Não reagiria.

Aquele era um dos infames momentos onde o que pensava não se alinhava com o que professava crer. Seus olhos novamente se alinhavam com o crucifixo à frente.

— Amor sacrificial — disse ele, um suspiro sendo liberado em seguida. Pareceu doer. — Consigo amar, Senhor. Contudo, consigo me sacrificar?

Ambos sabiam que não.

A presença de Kális naquela noite viera como uma neblina intensa, tal qual aquela que repousa densa em baixios úmidos e frios – densa e quase palpável. Parte dele ansiava pelo passado. Profundamente. Ali, em silêncio na gélida e imaginária neblina, ele conseguia ver algo; apenas contornos, silhuetas, mas era o bastante. Ali ele pôde ver, como se sua memória tivesse se tornado matéria.

Seu passado se tratava apenas de ruínas. Nada mais.

Medo. Medo. Medo. Apenas isso havia ali. E uma insignificante fagulha de esperança. Essa fagulha o fez querer se adiantar na direção da neblina, adentrá-la. Ver se lago jazia em suas entranhas, além das silhuetas.

— Quem sabe — ele disse para si — não há alguma beleza entre os escombros? Quem sabe se lá não encontro minha deusa, minha Vênus singular, da qual conhecerei toda a plenitude?!

Seu coração pulsara forte. Firme. Ele se vê estendendo uma das mãos para tocar as ruínas, mas a recolhe rapidamente em seguida, sua face se distorcendo ao mero pensar, o mero recordar-se da dor.

Ele recolheu a mão como alguém que, hipnotizado, mas agora desperto, vira-se prestes a colocar o braço dentro da terrível toca de escorpiões.

— Eu prefiro morrer! — disse Pierrot entredentes, toda a paisagem se dissipando e ele se vendo novamente na igreja cada vez mais silenciosa.

Ouviu passos às suas costas. Virou-se em tempo de ver Kális retornando.

“Vênus...”, sua mente cantou. Lá, nas profundezas, nos corredores das galerias, ele pedia por ela. Se ela lhe verdadeiramente lhe pertencesse a ela se dedicaria, estaria sempre à espera dela para se dedicar a ela, apenas a ela e plenamente a ela. Ele se devotaria a ela tal qual um fervoroso acólito, feito aqueles que em suas fés se prostram diante de seus deuses. Pediria por mais dela, a despiria a fim de conhecer sua sacra essência em profundidade. Prometeu, conta o mito, fora atado a rochas, e Pierrot sabia que se ataria ao enlevo pálido dos seus seios, alvos como o frio e elegante mármore. Ele se submeteria apaixonadamente a ela, se esconderia sob suas asas... Lembrara-se de dias em que entregue à imensidão de seu sentimento viu-se indagando se era ela uma deusa pálida ou apenas um comum ser humano. No fim não importava, pois seu âmago pedia por mais dela, por mais da sua presença...

Se ela fosse a personificação de um abismo ela pediria para que ela permitisse que ele caísse em sua vasta imensidão...

Ela parou diante dele. Sorriu. O mais belo sorriso que já vira. Ao invés de torna-lo ainda mais imerso em seus pensamentos, isto o fez despertar, rejeitando cada singela tentação.

“Não”, ele disse mentalmente, sorrindo de volta para a bela diante dele. “Eu prefiro morrer a viver tudo isto outra vez.”

Felipe R.R. Porto


quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Satura - Capítulo 3: Crucifixo

 


Kális não estava interessada em esperar as pessoas saírem antes que ela pudesse entrar.

Galgaram os degraus que davam acesso ao corredor que levava à porta enquanto o fluxo de pessoas fazia o oposto, sendo flanqueados pelos pares de colunas antes vistos.

Pierrot, enquanto se moviam na direção contrária à das demais pessoas que deixavam o sacro lugar, não pode deixar de notar alguns olhares de reprovação. Não era de se surpreender, porém. Afinal eles estavam adentrando o lugar após o término da celebração. Ainda mais constrangedor seria se alguém demonstrasse ter notado que Kális e ele estiveram ali fora em todo o tempo.

No entanto, nada foi mais constrangedor do que ter encontrado o ministro à porta, se despedindo das pessoas que saiam.

— Amo a arquitetura deste lugar — Kális disse após já terem passado pela torrente de pessoas. Ali dentro havia apenas grupos dispersos ou se dispersando. Na direção do altar pessoas em vestes sacramentais iam de um lado para outro. — Pessoas podem falar o que quiserem sobre religiões cristãs, mas não podem descordar quanto à beleza dos templos.

Ela estava certa.

O lugar era deslumbrante, como antes ele já havia reparado outras vezes, mas não podia não fazê-lo outra.

Kális já havia soltado de sua mão e escapava para o corredor à esquerda. Ela logo parou diante de um dos muitos vitrais, fitando um que ambiciosamente representava a crucificação de Cristo. Uma peça rica para um vitral.

— É realmente lindo — Pierrot comentou, parando ao lado da mulher.

Ela bufou ao lado, se divertindo.

— Só assim para você elogiar a Igreja, não?

— Elogiar a arte na Igreja — ele corrigiu. — Teologia, História e vida prática nem sempre andam de mãos dadas no Catolicismo Romano. Ou mesmo em outras vertentes, sejamos honestos.

Ela não o instigou a falar. Por mais que se divertisse com suas reações, ela certamente não se divertiria com suas opiniões.

— Você ainda crê n’Ele? — ela perguntou, acabando por desviar o olhar da peça de arte. Pierrot a fitou, por sua vez. Era apenas uma representação e ele entendia muito bem disso.

— Claro que sim – ele disse com solenidade. — Creio muito.

Ela apenas assentiu, ele viu com o canto dos olhos.

— Aprendemos que Ele fez o que fez por amor — ela interpelou. — Um grande amor. Um amor assombroso, eu diria. Quero dizer... não vemos muitos atos assim, vemos?

Ele balançou a cabeça em negativa.

Haviam recomeçado a andar, indo em direção ao altar, mas sem deixar o corredor. O lugar se tornara um pouco mais vazio, sendo que dos grupos de antes apenas um permanecia. Não deveriam se demorar ali.

— O que é o amor para você, Pierrot? — ela acabou lhe perguntando quando chegaram ao fim do corredor. Diante deles, na parede, um crucifixo sustentava um homem sofrendo dores horrendas. Pierrot acreditava que boa parte dos “cristãos” falhavam em ser cristãos reais apenas por ignorância – opcional ou imposta.

Ele não era a pessoa mais própria para responder aquilo. Ele sentia que ela deveria saber. E se sabia não entendia a razão de ela perguntar. Seria um teste?

— Eu diria que amor é devoção — disse ele simplesmente.

— Pode falar mais do que isso, por favor — ela o instigou com um tom levado na voz, percebendo que ele não diria mais. — Sei, apenas pelo seu rosto, que gostaria de divagar um pouco mais sobre isso...

Aquilo o divertiu. Era verdade.

— Não me entenda mal, mas o próprio Cristo se devotou à humanidade, ainda que primeiramente Ele o tenha feito a Deus — Pierrot disse. — Já ouviu pessoas dizendo que a igreja – todo os que creem – é a Noiva de Cristo?

Ela fez que sim.

— Ele a amou tanto que morreu por ela — explicou. — A cruz foi uma singular e até escandalosa, assim digamos, declaração de amor. E esse amor, aquele derramamento de sangue... deveria nos fazer chorar torrentes de lagrimas. Infelizmente, não nos devotamos a Ele como Ele se devotou a nós.

Aquilo causou um momento de silêncio. Ele não esperava por esse resultado. Aliás, ele não o pretendia.

— Quando amamos alguém demonstramos certa devoção — ele continuou na tentativa de trazer a conversa para o ponto qual ele cria ser o objetivo de Kális. — Há momentos onde nossos seres parecem implorar, suplicar, uns pelos outros, apenas para que seja sentido Amor. Para que ambos sejam completados. Sem orgulho. Sem humilhação. Havendo devoção sincera de ambas as partes... ambas confiarão. E confiando... se renderão.

— É tão belo que soa utópico, não acha? Soa... arriscado?

— E é — disse ele. — Mas se você consegue sentir a genuinidade do amor do outro seu medo se vai. Você entrega seu coração, seu pequeno bem mais precioso, e decide que pode confiá-lo a alguém.

— Mas e se esta pessoa falhar?

— Tenha certeza que vai.

— Então não é inteligente se fazer algo como se entregar...

— Então, se você chegar a pensar desta forma, não é amor. Claro que não deve continuar.

Aquilo provocou outro momento de silêncio. Ele não perguntaria a ela, mas não conseguia evitar um pensamento: aquela questão a vinha incomodando.

— Devo acrescentar que as pessoas que amam também falham — ele disse. — Você, Kális, falhará com que ama ou vai amar. Não quero focar no aspecto religioso, mas minutos atrás eu estava falando sobre Cristo ter morrido por Sua Noiva. Eu mencionei que a Noiva é a Igreja, Igreja que é composta de seres humanos, os quais são, em termos teológicos, miseráveis. Falhos. A Igreja nunca amará a Cristo na mesma medida em que Ele a amou, mas tudo bem. Ele a ama e sabe que, apesar das falhas, ela O ama também. Aqui chegamos a uma quase impossibilidade nos tempos modernos: o Amor Incondicional.

— O amor hoje é condicional — Kális disse. — Está atado a algo que possa ser oferecido em troca. Eu te amo “se” e não “eu te amo apesar de”. Não é?

Ele fez que sim.

— Amar alguém perfeito... talvez não seja amor — ela completou.

— Concordo. Além de não existirem pessoas perfeitas — ele lançou um olhar para ela, que sorriu, desviando o olhar para o ponto acima deles.

Onde estava o crucifixo.

— É. Existiu uma — ele se corrigiu, pensando na pessoa do homem representado no triste objeto.

— Queria não ter falhado com você — ela disse. — Você não merecia.

— Não carregue o fardo sozinha — disse ele. — Também tive minhas falhas.

— Hoje em dia eu não vejo assim — ela contou. — Acho que você foi o único que me amou. Em toda a minha vida, Pierrot. Bom, você me amava, não?

Ele, desde o inicio daquela conversa, teve medo de que aqueles rumos fossem tomados. Não queria. No fundo, por um lado, ele temia crer menos que ela nas coisas que dissera nos últimos minutos.

Apesar disso ele não era um mentiroso.

— Sim — ele disse, por fim, mas não se voltou a ela. — Creio em anjos e você era o meu. Acredito que pecamos e você era meu pecado mais doce. Você era meu sol... a minha fúria. Minha musa, minha luxuria e maior desejo. Tudo isto temos na vida humana... e era isso o que você era pra mim. Vida — suspirou ao dizê-lo, um tanto descrente de estar dizendo todas aquelas coisas. Daquela forma. Ainda existia o medo em seu coração, mas decidiu lutar contra ele a fim de dizer o que já queria ter dito antes, mas como uma declaração e não como uma lembrança, como agora o fazia. — Você se tornou o lugar onde eu queria me demorar, onde me sentia abraçado. Eu apenas desejava que você continuasse me cativando, me guiando para o seu mundo. Eu me “devotava” a você, desejoso de fazer parte do seu “reino”. Adentrar sua aura e espírito; sua alma e carne...

Pierrot fitava o crucifixo, mas se voltou para Kális antes de prosseguir:

— Já leu a parte da Bíblia que fala “por suas feridas fomos curados” ou “sobre si levou dor e transgressão”... “homem de dores”?

Ela fez que sim, os olhos um escuro oceano. Aquosos.

— Sua dor e feridas... eu as teria tomado para mim — disse ele enquanto fitava a profundidade daquele sublime par de olhos, as voltando-se para o crucifixo outra vez. — Eu teria, se necessário, aceitado se crucificado por você.

A verdade, Pierrot sabia, era que, apesar de tudo, ele ainda a amava...

Felipe R.R. Porto