quarta-feira, 26 de abril de 2023

Solidão - Capítulo 4 : Servo De Um Fantasma

Ainda sentado Arlequim alcança um pequeno compartimento ao lado de sua mala. Sua mão desaparece dentro deste, ele o remexe até encontrar o que procura. Segundos depois está com um cigarro nos lábios. Ele traga e suspira, a fumaça logo carregada pelo vento. Já se perguntara se aquilo, o habito de fumar, possuía para ele um sentido dúbio: o acalmava... e o matava. “Talvez”, pensou, sentindo alguma calma o tomar quando soltou a costumeira fumaça pela segunda vez.

Procurou ter a mente fria. Mantê-la calculista, ainda que ela relutasse. Se examinou e, como há pouco, constatara que estava perdido, servindo a duas vozes. Não sabia dizer se eram as vozes do passado e do presente, do passado e do futuro. Talvez não se tratasse de nenhuma das possibilidades. Talvez se tratasse de quem ele um dia fora e quem ele seria se fosse conivente com os padrões que o cercavam. Talvez. Ele sabia, porém, que haviam duas vozes lhe falando à consciência, lhe sussurrando aos ouvidos.

Talvez... tudo soava como um grande talvez. No entanto ele estava pronto. Ele ouvira alguém. Ou ninguém. Uma das vozes, no final, lhe será útil e verdadeira. Percebeu-se, neste instante, como sendo servo de um fantasma – de um espirito. Dependente dessa forma ou dessa deformidade. Alguém que, de qualquer forma, ele esperava que estivesse lá.

Havia a dor, mas ele buscava sobrepujá-la, estar acima desta, não permitindo que lhe ditasse as direções, não lhe ditasse também suas emoções. Já sofrera em demasia por isso.

Porém, ao mesmo tempo, para chegar a algum lugar – a algum lugar diferente – ele deveria correr o risco. Sem riscos, era bem sabido, não se chega a lugar algum. Não obstante, manter-se estagnado também se trata de um risco.

Mesmo, então, para batalhas, lutas que exigissem muito dele, ele estaria pronto para elas.

“Saque sua faca”, uma das vozes, no entanto, pareceu lhe dizer de forma desafiadora. “Fira sua alma e esteja preparado para ouvir seus gritos, beber do sangue a verter . Por fim, aproveite o momento!”

No entanto, ainda que essa decisão lhe tivesse acometido, seus olhos o obrigaram a notar algo: ele estava sozinho. Completamente sozinho. Estes mesmos olhos pareceram feridos por isso. A persistência que foi a bandagem que ele utilizou sobre estes olhos a fim de que ele pudesse ao menos prosseguir.

Arlequim se lembrou de um de seus momentos no velho trailer que fora levado pelo circo e seria dado a outra pessoa. Lembrou-se de uma vez em que, antes de maquiar-se, fitou o espelho. É óbvio que ele vê a si mesmo neste. Entretanto, fora doloroso.

“Você não passa de uma prostituta para essa vida, não é?” Não demorou para que aquilo que lhe doesse. Ele se lembrava de ter varrido toda a maquiagem e apetrechos ligadas a essa para o chão – o mesmo chão no qual ele caiu ajoelhado e lágrimas lhe desciam pelo rosto destruindo o trabalho, ainda que pouco, que ele havia feito.

Ainda que vagarosamente, ele começava a entender o que acontecia. O que a vida era.

Ele recordou de ter se levantado. Fitara o espelho outra vez. Fitara a si mesmo outra vez. Era ele e ninguém saberia disso mais do que ele. Ainda que estivesse vestido com suas roupas para o espetáculo da noite que se avizinhava ele era capaz de se enxergar perfeitamente. Nu. Suas vergonhas, suas falhas, seus medos e dores, assim como suas virtudes. Estas últimas, para ele, eram quase questionáveis. Se apenas ele via sua honestidade, sua generosidade e sua fraternidade como virtudes, como saber se realmente o eram? Como ele definiria isso? Há um padrão? Algo que mostre a direção...?

Ele se desvencilhara desses pensamentos. Não precisava deles agora. Intentava se focar naquela noite e nela apenas...

... naquela noite onde ele revidara as vozes. 

— Me mostre sua carne — ele havia dito para a figura no espelho. Era ele, mas também não era. Era ele, mas também eram aquelas vozes... o estranho fantasma ao qual ele inconscientemente, ou às vezes conscientemente, servia. — Corte-a. Quanto a mim? Sim, violente essa alma, beba do néctar que ela verter e a fertilize. No entanto, saiba de algo: não posso me livrar de você... mas você também não pode se livrar de mim! — Arlequim baixou os olhos para as próprias mãos. Eram realmente dele? Voltou os olhos para o espelho e o olhar que recebia, que lançava, era firme. — Como você grita em minha mente eu gritarei dentro da sua. Vou estraçalhar esse seu maldito crânio de dentro para fora. Sua dor, seu ódio... eu vou senti-los. Suas feridas... eu as abrirei e farei com que sangrem novamente!

Eram promessas! Ou não eram? A quem? A si ou àquele que pensava não ser ele, ou quem desejava que não fosse ele...?

Ele continuou fitando o espelho. Fitando as formas da pessoa que lá enxergava. Era ele, e sentia que também não o era. Apesar das vozes existirem, elas eram apenas ele. Apenas ele, pois estava sozinho. Completamente sozinho. A não ser por si mesmo. Pois podia dizer ao reflexo que se fosse, que o deixasse em paz, mas isto não aconteceria. Qualquer pedido receberia um não, ainda que o tempo tivesse passado e o próprio Arlequim não tivesse cumprido com as ameaças que fizera.

A única verdade, até então, é que fora ele seu maior enganador. Fora ele próprio o Judas que o traíra. Ele se punira e acabou sangrando pelas escolhas que fez contra si mesmo. Contra si mesmo. No entanto, dentre as maiores verdades já ditas neste mundo uma que merece ser sempre lembrada é que cada um é o pior inimigo de si mesmo. No fim, talvez, todos queiram apenas se punir pelo sofrimento que infligiram a si próprios.

Seria um massacre sangrento e hediondo se as coisas fossem simples assim. Não são, todavia. Embora muitos queiram. Embora o próprio Arlequim quisesse isso em momentos.

Ali, mesmo sozinho, como naquela lembrança ele se levantou. O cigarro, qual ele mal fumara, acabara se consumindo e as cinzas precisavam apenas do costumeiro “peteleco” para caírem. Precisava continuar. 

Logo nevaria.

Felipe R.R. Porto

terça-feira, 18 de abril de 2023

Solidão - Capítulo 3 : Solidão

O sol havia brilhado aquela manhã, mas não fora por muito tempo. No dia anterior uma tempestade ameaçara castigar as redondezas. Somente ameaçara, pois a noite veio, adentrou-se a madrugada e rompeu a alvorada sem que gota alguma tocasse os trailers, barracas, tendas ou jaulas do local onde o circo estivera nas últimas semanas. O céu, mais do que no dia anterior, trazia em suas nuvens uma tonalidade chumbo. Frias nuvens. Obviamente também frio era o vento que soprava.

Talvez realmente chovesse naquele dia.

Ao longe, mais a Leste, uma grande caravana se afastava. Ali, onde estiveram todas as armações e estruturas, lonas e demais quinquilharias do circo, haviam permanecido apenas os sinais de que este um dia estivera ali: duas estacas, Arlequim notara, foram esquecidas ainda fincadas solitariamente no solo e junto a estas um considerável retalho da lona de uma das tendas, onde grandes estrelas douradas foram ilustradas contra o azul escuro - talvez, às pressas, creram ter removido todas as mencionadas estacas, mas viram o erro ao puxarem a lona e esta se partir. Era uma possibilidade.

Uma pandeirola estava sobre o gramado - alguém certamente sentiria falta desta. Ao redor via-se grandes porções, geralmente circulares, da grama e suas minúsculas ramas ainda assentadas, inclinadas, tendo algumas adquirido uma coloração menos viva. Eram estas últimas, certamente, as maiores evidências de que um circo estivera por ali. Sobre elas estiveram estruturas de tendas ou arquibancadas, jaulas, caixas e caixotes, carrosséis, trailers e tantos outros objetos e estruturas. Arlequim estava em uma de forma circular, onde já se apresentara a grupos menores de espectadores em situações e números mais intimistas devido à proximidade com que o assistiram.

Aquilo tudo havia passado. Seriam apenas marcas em sua memória, assim como aquelas sobre o gramado. No entanto, a grama, em um ano ou dois, viria a “se esquecer” do circo e de tudo aquilo que este trouxera consigo.

Além de duas estacas, um retalho de lona, uma pandeirola e marcas sobre o gramado, Arlequim também ficava para trás. Havia escolhido assim. Havia escolhido, mas seria mentira dizer que não era estranho, mesmo levemente angustiante, ver a caravana se afastar, indo para um lugar para o qual ele não iria.

Aquele era o fim.

— Eu escrevo minha história — ele disse para si.

Havia algo de aterrador no “escrever a própria história”, havia a responsabilidade do “escritor”. Apenas teria de saber lidar com as consequências de sua “corajosa escrita”. Ninguém era capaz de entendê-lo melhor que ele mesmo, então acreditava ter feito a escolha certa no momento oportuno.

Acreditava mesmo? Ele suspirou diante da questão levantada pelas vozes que ainda ouvia, nada mais do que ecos da saudade precoce, ou da saudade de como as coisas já haviam sido mais simples.

A caravana, ele então vê, desaparece no horizonte. A solidão que paira é esmagadora, desoladora. Ela, diferente de outras vezes, lhe surge agressiva. Ele sente que ela o esbofeteia a face. Ele, no entanto, não foge dela. Já eram conhecidos, amigos, há tempo demais. Bons amigos discutem, se ferem, mas... nunca abandonam um ao outro. Ela parecia incapaz de abandoná-lo.

Ele, se esforçando, se levanta. Tinha de ir.

Uma memória lhe toma a mente, mas ele reluta em deixar que ela tome plena forma. Ela, porém, esta lá. Novamente ele se vê confuso, como se tivesse sido estilhaçado, feito em milhares de pequenos pedaços. Novamente a insegurança o toma e o abate. É como se cada um dos pequenos pedaços decidisse qual o caminho deveria seguir. Porém, por razões diferentes, eles tomam direções diferentes. Ir-se-iam se realmente pudessem. Ir-se-iam... como outros já se foram. “Eu não segurei suas mãos firme o bastante”, ele apenas pensa.

Ele, sucumbindo, senta-se outra vez. Sozinho. Sozinho ele viveu seus últimos anos; naqueles antes deste ele eram jovem demais para se importar com a solidão. Como crianças, em dados momentos, o ser humano soa tão fácil de agradar. Entretanto, isso, com o tempo, parece passar – a não ser que as prioridades sejam outras, que as questões, objetivos e sonhos sejam outros. Sozinho ele buscou seus sonhos, quais descobriu serem falsos. Ele procurou pela glória do amor, mas no fim encontrou apenas solidão.

Lembrou-se do estranho sonho que tivera na última noite. O momento em que ele retornava para seu assento e o encontrava já ocupado. Talvez, ele então pensou, que estivesse procurando sonhos que, na verdade, não pertenciam a ele. “Ou sonhos que não caberiam a mim sonhar”, concluiu ele sentindo-se outra vez imerso, sob o peso da ridiculamente esmagadora solidão. 

Felipe R.R. Porto

sexta-feira, 31 de março de 2023

Venha conhecer o Posers, Duo com Influência de Rammstein e Lacrimosa!

 


O embrião do Posers surgiu em 2008, mas o guitarrista e vocalista Guilherme Colosio e o multi-instrumentista Pedro Miranda somente retomaram as atividades em 2020. “Voltamos justamente em um período em que a humanidade foi forçada a se recolher e olhar para dentro de si. Devido ao isolamento social imposto pela pandemia, tivemos uma oportunidade de resgatar coisas que nos faziam bem e bastavam por si. A música foi um desses resgates”, comenta Colosio. O primeiro fruto do retorno do Posers se dá agora com o lançamento do single e lyric video de “Razão”, composta há mais de 10 anos, mas que vem acompanhada de uma estética condizente ao contexto político atual.


Por sua estética focada no clássico e em peças de teatro, o duo procura passar suas mensagens de forma abrangente no audiovisual. Assim, o trabalho para o videoclipe buscou ilustrar o comportamento de um psicopata e sua investida contra a vítima. “Ao longo do processo a troca de figurinos, maquiagens e cenários buscavam valorizar a instância da psiquê preponderante no momento e seus conflitos com as outras instâncias”, explicou Guilherme Colosio.

Além de referências ao metal industrial e ao gótico, especialmente Rammstein e Lacrimosa, o duo traz uma estética focada no clássico e em peças de teatro, principalmente na obra de William Shakespeare. Desta vez, o duo explorou timbres com ressonância, tendo sintetizadores e guturais fazendo contraposição ao silêncio e calmaria. “Exploramos timbres com bastante ressonância dentro de uma harmonia que não se resolvia rapidamente. ‘Lixo’ é para ser ouvida em volume alto para um maior envolvimento com a atmosfera criada”, concluiu o multi-instrumentista Pedro Miranda.


O último Single da Banda se chama ''Noite de Núpcias'' e conta com um vídeo clipe que pode ser conferido a seguir:





Youtube: posersbr











Solidão - Capítulo 2 : Olhares Passageiros

 


Olhares Passageiros

A turbulenta noite se fora, mas deixara lembranças de sua estadia. Arlequim dormira quando a Lua – vista parcamente e apenas uma vez em um momento de, talvez, misericórdia das arrogantes nuvens - se achava alta, a madrugada os abrigando. Não, não sentira sono. Concluíra que fora apenas vencido pelo cansaço e pelo tédio.

Esta derrota lhe conduziu a um sonho.

Neste sonho ele se encontrava em algo que provavelmente era um cinema. Teve confirmação disto quando notou a quantidade de cartazes expostos de forma costumeira pelos corredores. Porém, quando se atentou aos detalhes dos cartazes e ao que diziam foi tomado de assombro; um dos pavorosos cartazes anunciava a estreia daquela noite e era ele mesmo que vira retratado no fatídico anúncio. Viu-se retornando a outros cartazes e só então notava o propósito daquele cinema: exibir sua vida. Cartazes, cartazes e mais cartazes por todos os lados. Por mais que alguns deles não dissessem com ênfase ser ele o tema ele pôde reconhecer isso ao observar com afinco.

Observando um dos cartazes, qual era emoldurado e com uma peça de vidraçaria como proteção, Arlequim viu seu reflexo no cartaz. Os mesmos traços, a mesma maquiagem. Desviando a atenção do cartaz ele lançou um olhar por cima do ombro, percebendo assim que muitos olhares estavam sobre ele.

Aquilo não era um sonho. Era um pesadelo.

Ele, se afastando, às pressas procurou por uma sala. Caminhara de porta em porta, olhares ainda o perseguindo. Uma das portas chamou-lhe a atenção devido ao burburinho de vozes que vinha do seu interior – o que poderia fazê-lo se afastar se estivesse acordado, mas era um sonho. Tinha de ser.

Ele a abriu e vira o local apinhado de pessoas. Todos os assentos estavam tomados. Com exceção de um, ao qual se dirigiu. Nada menos do que um assento dobrável.

Sentou-se e olhou ao redor, sentindo o nervosismo lhe roer os ossos, lhe incomodar as entranhas, devido quão assombrado se achava com o número de pessoas presentes ali. Não deixou de acreditar, apesar de tudo, que não se tratava de algo real. Ele bem se conhecia: não iria a um local onde sua própria vida fosse exibida.

— Não, um sonho não – murmurou para si a conclusão de há pouco.  — Um pesadelo.

Destes não se consegue sair.

As luzes se apagaram. O filme se iniciou e o silencio humano que tomou o local era quase mórbido. Mais mórbido ainda foi quando memórias surgiram, o distante passado tendo vindo com elas, arrastado pela mão à força para dentro da mente de Arlequim. O passado que deixara de ser passado para estar em seu presente uma vez mais. Na imensa tela um estranho “eu”, o “eu” do passado – um fantasma – fita a face daquele em quem se tornara. Arlequim, no entanto, desvia o olhar, voltando-se, involuntariamente, para a multidão. Um sobressalto o tomou quando o grande salão é tomado por uma súbita explosão de risos. Gargalhadas. Alguns, ele nota, lhe lançam olhares, outros apontam o grande telão, onde algo cômico deveria estar sendo exibido. Arlequim reluta, mas logo seus olhos também se voltam para a sequência de imagens. O que ele vê? Um aleijado, quebrado, à deriva sobre as ondas.

Arlequim sente-se abatido, doente. Sente seu rosto arder, a vergonha lhe tomando de assalto. Ah, mas eles nada sabiam. Nada sabiam sobre ele. Não sabiam sobre as impressões do tempo sobre sua alma. Não, o tempo não fora tão generoso com ele como parecia ter sido com tantos. Ele, muitas vezes, chegara à conclusão que o tempo, para ele, se movia penosamente, como se este se arrastasse ao invés de caminhar. Seu tempo parecia estagnado, não notando ele nenhuma grande diferença entre o ontem e o hoje. Seu hoje, acreditava ele, nada mais era do que uma mera impressão do ontem. Seu hoje era uma estela onde tudo o que fora ali gravado... era o seu ontem.

Quando Arlequim volta a si ele percebe que, sem que notasse, havia baixado a cabeça, enterrando o rosto em pranto nas mãos agora úmidas. Quão imerso estava em tais pensamentos? Quão imerso estava em sua ruína? Olhando para as mãos nota manchas escuras nelas. Teve medo de imaginar como seu rosto estava naquele instante...

Na enorme tela a cena parecia prolongar-se. Aleijado. Quebrado. Ele sabia as razões, ele se lembrava daqueles dias. Lembrava-se que questões lhe assombravam; questões sobre os mistérios da Vida e Morte, seus significados... Aquilo o assombrava, o feria e o lançava sobre as vagas da dúvida, do sofrimento. Da dor. Agora, contudo, era diferente. Ele não tinha todas as respostas, mas sentia que tinha respostas o bastante para buscar prosseguir. “Hoje eu sei a resposta”, pensou ele, sobre uma pergunta em particular, “naquele tempo eu não sabia...”

“Eu tomei a decisão errada”, ele conclui intimamente, sua consciência sendo a única que o escuta.

Nova torrente de risos surge, expulsando seus pensamentos por um instante, enviando-os para os confins de sua mente. Arlequim, no entanto, não dá atenção ao que as telas mostram neste instante, sentindo apenas o impulso de se retirar. Às pressas ele o faz, levantando-se rapidamente e galgando feroz as escadas que o separavam da porta de saída. Suas entranhas, comovidas pelo intenso nervosismo, reagem, e sob o olhar de alguns ele sucumbe, caindo de joelhos sobre o carpete, arfando.

Aqueles olhares... aqueles mesmos olhares. Não, ele não sentia apenas vergonha, ou nervosismo. Sentira algo mais: sentira ódio. Diante daqueles olhares ele se perguntou, enquanto se levantava e buscava se recompor, se mesmo ali, na luz, ele poderia ser reconhecido. Se o fosse... ririam dele outra vez? Desejou que todos eles se retirassem. Que se fossem e vivessem suas vidas, deixando a dele. Era sua vida. Sua própria e intima vida! Eles não tinham o direito de agir como agiam...

No entanto, ele estava em um pesadelo. Não conseguia sair. Era decepcionante que mesmo desacordado ele permanecia assombrado. Era frustrante que seus sonhos se esvaíssem tão facilmente, feito algo lhe escapando por entre os dedos, e seus pesadelos fossem soberbos e resistentes. Imponentes.

Ele se levanta, cruza o corredor até a saída, mas estaca diante das portas, nada mais que vitrines. Lá fora uma multidão de pessoas aguarda para entrar. Arlequim balança a cabeça, sentindo seu corpo começar a refazer o caminho de volta. 

De volta para a sala onde tão constrangedora obra era exibida. Porém, quando ele volta e procura seu assento vê que este não estava mais vazio. Ele não reage, mas senta-se no chão, em um dos degraus e encara com firmeza a tela. Sim, era sua história. Seu filme. Não obstante, ele desejava saber o que aconteceria, qual seria o final de tão hedionda obra. “Eu ainda não sei sobre meus pecados... onde exatamente errei”, refletiu ele, pensando também que a ignorância não seria tão ruim. Há coisas que devem permanecer desconhecidas.

Era o filme de sua vida, mas ele não esperava muito. Aliás, esperava apenas que logo viesse a morrer, assim sendo, ele não teria de carregar o fardo que vinha carregando por tanto tempo.

— Me desculpem se minha vida perturba alguém — ele se viu dizendo em voz baixa. — Ao menos ela serviu de inspiração para um filme que as pessoas gostam.

Ele não esperava que alguém ouvisse, mas olhares se voltaram para ele, o repreendendo. Estava errado. Constrangido por estes mesmos olhares ele se voltou para a tela, onde era exibida uma cena estranha de se ver: sua morte.

Novamente há risos na sala e ele se pergunta, ainda assim, se seus risos de dor no ontem teriam relação com tal momento...

Novamente alguém está rindo do filme ali exibido. A gargalhada ecoa, quase podendo ribombar contra as paredes do escuro salão. Arlequim outra vez percebe olhares, aqueles malditos olhares sobre ele, mas neles não havia a mesma repreensão de antes. Havia horror. Estavam chocados.

Quem ria, quem gargalhava, era o próprio Arlequim.

Felipe R.R. Porto

quarta-feira, 22 de março de 2023

Solidão - Capítulo 1 : Lágrimas De Saudade


Outro crepúsculo se despedira cerca de uma hora atrás. O conhecido véu escuro da noite plena tomara com firmeza seu costumeiro lugar.

Outra vez parte do mundo estava sob seu domínio. As nuvens acima se estendiam em todas as direções, tendo lá permanecido ao logo de todo o dia que findara; um dia borrado por tons escuros – cinzentos e agourentos. Arlequim vira o mesmo céu dias atrás como se feito de rocha, hoje tivera um vislumbre mais específico, concluindo que este lembrava uma fria lasca de mármore, funesta e gélida.

        Estava desta forma já havia dias e Arlequim sabia que aquele clima ainda se estenderia por vários outros. A escuridão, de fato, acabara de cair. No entanto, já havia aqueles que preferiam recolher-se frente à exaustão e frente ao clima.

        Mas havia algo mais, ao menos para o exaurido palhaço, que vira seu dia envolto em um manto persistente de incertezas. De medo. E a noite seguia os mesmos pavorosos passos, enquanto os passos do palhaço o levavam pelos espaços entre trailers e tendas. Espaços agora praticamente desertos, senão por um colega de trabalho ou outro. Alguma fria corrente de vento conseguia serpentear por estes locais vagos, fazendo vibrar lonas ou fazendo tremular as bandeirolas que encimavam as tendas menores e aquela maior, onde os maiores espetáculos ganhavam lugar.

       Aquele lugar, normalmente separado para lazer e momentos de alegria, não era livre do toque da melancolia. Nada era. Ninguém era.

     Não há aqueles sem cicatrizes. Não há aqueles que se achem livres das dores. No entanto, sabe-se haver aqueles cujas feridas parecem recusar-se a se curar, a dor por elas provocada se estendendo sobre e através das paredes do tempo feito implacáveis ervas daninhas.

       Inúmeras vezes se vira prestes a sucumbir e inúmeras vezes ironicamente se vira rindo de si, do quão patético às vezes soara a si mesmo. Rira, mas lágrimas lhe banharam a face. Inúmeras foram as vezes em que desejara gritar consigo mesmo... Há quem afirme sobre o perigo dos inimigos distantes, mas não há pior inimigo do que aquele que habita as profundezas do próprio homem.

       Não há pior inimigo do que si mesmo.

     Fora tolo desde tanto tempo, mas a dor viera. Lancinante. A dor última, quiçá, de uma alma ferida. Assim, essa mesma dor, para esta mesma alma, trouxe lições. Assim surgira o racional medo do amor. Não soava sábio a seus ouvidos amar quando sua alma cruzara, a passos dolentes, a Via Crucis. O amor, então, fora o seu Calvário. Seu Gólgota. E lá ele fora humilhado, ferido, transpassado e morto.

     Estas lágrimas vertidas em silêncio se tornaram máscaras sobre seu rosto; a luz que emite sombras e obstrui a si mesma. Não, não há utilidade no esconder-se de sua dor. Há apenas mais dor. Voraz e avassaladora dor. Assim, lá ele permanece. Ainda de pé, lágrimas lhe escorrendo pelo rosto, mas aprendera que certos atos são tolices. Aprendera que deveria ser quem era, não quem obstruísse esse mesmo ser.

     Foi assim, Arlequim acreditava, que a noite então deu à luz seu filho mais jovem: um sonho. Um sonho de amor, um sonho de saudade – de anseio. Desta forma trata-se de um sonho apenas para os olhos, não para o deleite das mãos. Sendo o que é, é apenas um sonho para se meramente sonhar e jamais para ser vivido. Um sonho para os olhos, apenas para contemplação; o tesouro inalcançável, por isso também, uma vez mais, um sonho para as mãos. Ou melhor, uma ilusão para as mãos.

       Pobre filho da noite. Eis seu sonho de amor... de sua saudade.

    Contudo, esta criança, esse filho da noite, possuía olhos que até então não haviam realmente contemplado a beleza. Assim sendo eram fracos, limitados, para ser maravilharem. A luz gloriosa do sol nascente, então, não veio para este filho. Ele, agora se vê, era cego. A luz, tão bela, estava lá, mas não para olhos feito os dele. Cegos... talvez, de alguma forma, imaturos.

       Ele, no entanto, fora cego por muitos anos, mas não por não poder ver. Era cego por não ser capaz de admirar. Assim como existe a diferença entre o mero ouvir e o precioso escutar.

   Esta criança, esse estranho sonho, era ele mesmo. Ele, apaixonado pela noite, e alimentado pelas poéticas expectativas que nela aprendera a ver com o passar dos anos.

      Sim, uma criança, mas estes mesmos anos que lhe ensinaram o “admirar-se” também lhe mostraram que suas mãos eram velhas, eram calejadas pelo viver. No entanto, ainda que velhas, permaneciam intocadas. Talvez, apenas talvez, uma explicação devesse ser concedida. Entretanto, a única que poderia lhe ser dada estava perdida.

       Mesmo esta se achava perdida.

     Isto tornava suas lágrimas um amargo mistério; mas ele as vertia em silêncio, atrás da cômica máscara que passara a usar. Lágrimas de um anseio apenas sonhado, de uma saudade de algo ainda não experimentado.

Felipe R.R. Porto

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Medo - Capítulo 6 : Lágrimas Da Inexistência

 

Foi ainda com o "bipe" prolongado lhe assombrando a alma que despertou. A face banhada em suor, a respiração ofegante e o coração batendo rápido como jamais havia feito. 

Lá fora, notou quando seus olhos involuntariamente correram para a direção da cortina, o dia clareava. Podia-se ver a claridade mesmo com esta tapando a vista, esta escapando levemente pelos cantos do tecido preto e branco. 

Fora um pesadelo; as imagens horrendas e estranhas das duas entidades, Solidão e Saudade – ele se lembrava – ainda vívidas em sua mente. Não fosse o bastante as figuras agourentas gravadas em seus pensamentos ele também ouvia, em um ir e vir, o fatídico som do aparelho que acompanhava os batimentos cardíacos no angustiante sonho. Mas não eram apenas os “bipes-bipes” que lhe torturavam, mas a última sequência, no qual um dos “bipes” se prolongava como uma trombeta cômica, um silvo irônico ante a morte do palhaço. Estremeceu. 

Nada mais do que um pesadelo, todavia. Era isso, ao menos, que dizia para si. 

Ainda assim havia o medo, qual Arlequim tentou afastar de seu coração. Sentiu frio. Perguntou se haveria distinção entre ele e o palhaço que fingia ser, pois, em certos momentos, um assombrava o outro; talvez ambos vivos, mas talvez ambos fantasmas, drenando um ao outro. E um deles, quem sabe, estaria morrendo e fosse disso que o sonho talvez se tratasse... 

Buscou, ao levantar-se, se esquivar de tais pensamentos, mas era inútil, visto ser possuidor de um coração faminto por respostas. Sua alma agora o assolava com dúvidas. Assim, sabia que não se desvencilharia destas. Como tantas vezes já acontecera, fazendo com que a dúvida se tornasse uma companheira frequente de seus dias. 

Entretanto, todo ser humano possui dúvidas. Arlequim, porém, não poderia dizer se eram severas como as suas, ao mesmo passo que poderiam sim haver dúvidas mais severas que aquelas que lhe açoitavam a consciência. 

Como, todavia, ele gostaria de dançar em tal momento ao invés de fugir do constante medo. Como ele gostaria de simplesmente ser feliz, como quando era criança e apenas desejava os momentos onde poderia correr e brincar; momentos onde as preocupações da alma não o afligiam. Ah, como era doce o sabor das lembranças... como os algodões doces que no próprio circo ele mesmo já provara. Tão doces. Porém, elas, as lembranças, se tornaram pó, areia em sua boca. Apenas serviam agora para lhe dizer que não voltaria, quem sabe, a provar daquela doçura. 

Pobre Arlequim... 

Entretanto, ele conhecia seu estado, sua situação: estava só. 

Mas ainda que só ele persistia contra aquilo que se opunha a ele. Se agarrava firmemente aos dourados pensamentos juvenis; pensamentos de quando se podia rir e brincar durante o dia e outros onde podia sentar-se, lamentar e chorar durante a noite quando já não se podia fazer o que era feito durante o dia, pois as sombras haviam chegado. 

Os tempos de criança são tão incompreendidos, tão doces, mas apenas entendemos a doçura deles quando se percebe o quão amargos podem ser os anos seguintes. Anos que, quando criança, se almeja com ingênua veemência, mas quando chegam a adaptação às vezes vem com relutância. Não por imaturidade, mas por maturidade. Se sempre houvesse maturidade nos devidos momentos a imaturidade seria como sol e neblina em dias frios: um não pode suportar o outro por muito tempo. 

Que anos são estes? 

Anos nos quais a beleza é amplamente procurada, mas o que se encontra são vermes rastejando na imundície de sua vaidosa existência. Doentes. E ali ele também se encontrava. Não, ele não era um verme como eles, mas não deixava de ser um. 

Ali, naquela manhã, as lágrimas fluíram outra vez, mas devido a funesta e triste existência. A dor o feria, o preparava para a morte, para o momento no qual ele esmoreceria e feneceria... o momento no qual ele se tornaria uma lembrança no vazio... 

Ninguém se lembraria dele. Desta forma não haveria quem viesse a derramar lágrimas, não haveria quem pudesse sofrer o luto após sua partida. 

Por que? Porque para tantas ou todas as pessoas, no fim de todas as coisas, ele simplesmente nunca havia existido.

Felipe R.R. Porto


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Medo - Capítulo 5 : O Último Grito Por Ajuda

 

Onde estava? 

Arlequim sentiu os olhos doerem ao abri-los e ver paredes brancas demais e diante destas voltou a fechá-los como forma de protegê-los. Seu nariz se irritou ao sentir que inalava – agora conscientemente – o cheiro familiar de ambiente clinico. Sentiu, devido à leve ardência, que algo estava injetado em sua pele. Seus ouvidos captaram, por último e de forma também consciente, o familiar som dos "bipes-bipes" contínuos... 

Era um leito hospitalar. 

“Mas... como?”, ele se perguntou, os olhos se agitando ainda assustados com o lugar com o qual se deparavam. Iam, freneticamente, da esquerda para a direita e de baixo para cima e, ainda assim, não conseguiam ver tudo. 

Tentou, tentou e tentou, mas não conseguiu nada. 

Tentou, tentou e tentou... até que desistiu. 

E ali permaneceu. 

Ali, viu os dias passarem, depois sentira que estes se tornaram meses. Havia uma enfermeira, mas que morbidamente sempre surgia de rosto encoberto, dela ele via apenas os olhos muito negros. Ela, ao que ele percebia, vinha lhe passar algo no rosto. Não havia espelho para saber do que se tratava...

Estando ali, viu os dias passarem, meses passarem. A enfermeira, um dia viu em suas vestes brancas, se chamava Solidão e ela era, até então, a única o que o acompanhava. Ele tentava lhe falar, mas não havia resposta. Ela era fria, jamais deixando de fazer o que sempre fez. Trazia consigo dois frascos... sempre os mesmos frascos. Um de conteúdo branco e outro de conteúdo negro.

Ele não sabia o que havia exatamente acontecido. Em sua memória não encontrava nada que pudesse lhe ser de alguma utilidade para que obtivesse alguma resposta.

Só, esquecido, abandonado... sem amor, sem calor, sem esperança... nele havia somente a saudade. Saudade do quê? 

Desde então junto à Solidão veio outra figura, a Saudade, e entre si elas conversavam, mas nada que ele pudesse ouvir e nada que elas estivessem dirigindo a ele. O que poderia ser? 

Queria poder perguntar quando sairia dali, pois não precisava estar ali. Queria poder fugir daquele lugar, pois não havia nada de errado com ele... e se havia não lhe tinham contado, pois ao que ele sabia ele era plenamente saudável. 

Ele não podia ir e, pelo que notava, ninguém mais viria. Seria mesmo isso? Mas onde estariam aqueles que prometeram lhe amar? Onde estariam os pais que o geraram e até pouco tempo atrás ainda estavam ao seu lado? E os amigos que o apoiavam e a mulher que lhe prometera amor? Teria ela, principalmente ela, o esquecido? Todos o haviam esquecido? Haviam o abandonado? Deixaram-no para trás? 

Onde estavam as pessoas que o assistiam e o aplaudiam? Não teriam notado sua ausência? Já havia alguém fazendo seu numero já que ele estava como estava? 

Tantas perguntas lhe vinham, mas jamais as respostas. 

Percebeu que sua respiração tornara-se ofegante, seu coração agora galopava como um corcel desesperado sobre colinas selvagens. Os "bipes-bipes" do aparelho estavam também mais rápidos. Uma lágrima, ele pode sentir, desceu-lhe a face direita. 

Ali estavam as enfermeiras, Solidão e Saudade, mas não o notavam? Haviam se esquecido dele? Será que não haviam percebido que ele estava morrendo? Não poderiam ajudá-lo? Para seu desespero e total pânico elas deixaram o alvo quarto. Olhando para os lados, sendo capaz de mover apenas os olhos, ele constatou estar totalmente só. Não havia mais ninguém ali. 

O que vem depois de tais momentos, quando nem mesmo a Solidão ou a Saudade estão presentes? Só havia uma resposta e diante dela ele precisava de ajuda. Mas quem o ajudaria? Onde estaria o médico? Havia algum? 

Talvez ele não chegara até ali para ser curado, afinal. 

— Eu preciso de ajuda — ele balbuciou com dificuldade, como se talvez nunca tivesse aprendido a falar até aquele momento. — Preciso de ajuda! AJUDA!! 

O medo lhe corria pelas veias como um cardume de peixes mortos descendo uma correnteza rubra. Fria. Queria se mover, se levantar, alcançar alguma campainha que pudesse tocar e assim a ajuda chegasse, mas não podia. Estava inerte, senão pelos olhos que marejados se moviam no revisitado frenesi como se o avistar de algo pudesse resolver seu fatal problema. Medo. Como ele o sentia. Talvez fosse este que pesasse cada vez mais sobre seu corpo, impedindo que se levantasse. Talvez fosse o crescente medo que o atasse - feito correntes cuja resistência apenas aumentavam devido à força deste - àquele leito. 

Ali, agora parecia realmente o fim. Não havia ninguém por ele, ninguém que pudesse lhe ajudar. Quis gritar, mas sentiu seu folego minguando dentro de si e de sua boca nenhum som saia. Tentou outra vez mover o corpo, mas ainda que algum sucesso tivesse sido alcançado, não foram nada mais do que movimentos inúteis e que em nada lhe ajudariam. 

“Socorro...” foi seu último pensamento. O último grito por ajuda que fora capaz de emitir, mas ninguém o ouviria. 

Veio o último folego... a última batida. 

Arlequim já não ouvia quando o aparelho que marcava seus batimentos soou o último bipe. A última nota, a qual foi longa e lúgubre. Mórbida.

Felipe R.R. Porto