sexta-feira, 31 de março de 2023

Solidão - Capítulo 2 : Olhares Passageiros

 


Olhares Passageiros

A turbulenta noite se fora, mas deixara lembranças de sua estadia. Arlequim dormira quando a Lua – vista parcamente e apenas uma vez em um momento de, talvez, misericórdia das arrogantes nuvens - se achava alta, a madrugada os abrigando. Não, não sentira sono. Concluíra que fora apenas vencido pelo cansaço e pelo tédio.

Esta derrota lhe conduziu a um sonho.

Neste sonho ele se encontrava em algo que provavelmente era um cinema. Teve confirmação disto quando notou a quantidade de cartazes expostos de forma costumeira pelos corredores. Porém, quando se atentou aos detalhes dos cartazes e ao que diziam foi tomado de assombro; um dos pavorosos cartazes anunciava a estreia daquela noite e era ele mesmo que vira retratado no fatídico anúncio. Viu-se retornando a outros cartazes e só então notava o propósito daquele cinema: exibir sua vida. Cartazes, cartazes e mais cartazes por todos os lados. Por mais que alguns deles não dissessem com ênfase ser ele o tema ele pôde reconhecer isso ao observar com afinco.

Observando um dos cartazes, qual era emoldurado e com uma peça de vidraçaria como proteção, Arlequim viu seu reflexo no cartaz. Os mesmos traços, a mesma maquiagem. Desviando a atenção do cartaz ele lançou um olhar por cima do ombro, percebendo assim que muitos olhares estavam sobre ele.

Aquilo não era um sonho. Era um pesadelo.

Ele, se afastando, às pressas procurou por uma sala. Caminhara de porta em porta, olhares ainda o perseguindo. Uma das portas chamou-lhe a atenção devido ao burburinho de vozes que vinha do seu interior – o que poderia fazê-lo se afastar se estivesse acordado, mas era um sonho. Tinha de ser.

Ele a abriu e vira o local apinhado de pessoas. Todos os assentos estavam tomados. Com exceção de um, ao qual se dirigiu. Nada menos do que um assento dobrável.

Sentou-se e olhou ao redor, sentindo o nervosismo lhe roer os ossos, lhe incomodar as entranhas, devido quão assombrado se achava com o número de pessoas presentes ali. Não deixou de acreditar, apesar de tudo, que não se tratava de algo real. Ele bem se conhecia: não iria a um local onde sua própria vida fosse exibida.

— Não, um sonho não – murmurou para si a conclusão de há pouco.  — Um pesadelo.

Destes não se consegue sair.

As luzes se apagaram. O filme se iniciou e o silencio humano que tomou o local era quase mórbido. Mais mórbido ainda foi quando memórias surgiram, o distante passado tendo vindo com elas, arrastado pela mão à força para dentro da mente de Arlequim. O passado que deixara de ser passado para estar em seu presente uma vez mais. Na imensa tela um estranho “eu”, o “eu” do passado – um fantasma – fita a face daquele em quem se tornara. Arlequim, no entanto, desvia o olhar, voltando-se, involuntariamente, para a multidão. Um sobressalto o tomou quando o grande salão é tomado por uma súbita explosão de risos. Gargalhadas. Alguns, ele nota, lhe lançam olhares, outros apontam o grande telão, onde algo cômico deveria estar sendo exibido. Arlequim reluta, mas logo seus olhos também se voltam para a sequência de imagens. O que ele vê? Um aleijado, quebrado, à deriva sobre as ondas.

Arlequim sente-se abatido, doente. Sente seu rosto arder, a vergonha lhe tomando de assalto. Ah, mas eles nada sabiam. Nada sabiam sobre ele. Não sabiam sobre as impressões do tempo sobre sua alma. Não, o tempo não fora tão generoso com ele como parecia ter sido com tantos. Ele, muitas vezes, chegara à conclusão que o tempo, para ele, se movia penosamente, como se este se arrastasse ao invés de caminhar. Seu tempo parecia estagnado, não notando ele nenhuma grande diferença entre o ontem e o hoje. Seu hoje, acreditava ele, nada mais era do que uma mera impressão do ontem. Seu hoje era uma estela onde tudo o que fora ali gravado... era o seu ontem.

Quando Arlequim volta a si ele percebe que, sem que notasse, havia baixado a cabeça, enterrando o rosto em pranto nas mãos agora úmidas. Quão imerso estava em tais pensamentos? Quão imerso estava em sua ruína? Olhando para as mãos nota manchas escuras nelas. Teve medo de imaginar como seu rosto estava naquele instante...

Na enorme tela a cena parecia prolongar-se. Aleijado. Quebrado. Ele sabia as razões, ele se lembrava daqueles dias. Lembrava-se que questões lhe assombravam; questões sobre os mistérios da Vida e Morte, seus significados... Aquilo o assombrava, o feria e o lançava sobre as vagas da dúvida, do sofrimento. Da dor. Agora, contudo, era diferente. Ele não tinha todas as respostas, mas sentia que tinha respostas o bastante para buscar prosseguir. “Hoje eu sei a resposta”, pensou ele, sobre uma pergunta em particular, “naquele tempo eu não sabia...”

“Eu tomei a decisão errada”, ele conclui intimamente, sua consciência sendo a única que o escuta.

Nova torrente de risos surge, expulsando seus pensamentos por um instante, enviando-os para os confins de sua mente. Arlequim, no entanto, não dá atenção ao que as telas mostram neste instante, sentindo apenas o impulso de se retirar. Às pressas ele o faz, levantando-se rapidamente e galgando feroz as escadas que o separavam da porta de saída. Suas entranhas, comovidas pelo intenso nervosismo, reagem, e sob o olhar de alguns ele sucumbe, caindo de joelhos sobre o carpete, arfando.

Aqueles olhares... aqueles mesmos olhares. Não, ele não sentia apenas vergonha, ou nervosismo. Sentira algo mais: sentira ódio. Diante daqueles olhares ele se perguntou, enquanto se levantava e buscava se recompor, se mesmo ali, na luz, ele poderia ser reconhecido. Se o fosse... ririam dele outra vez? Desejou que todos eles se retirassem. Que se fossem e vivessem suas vidas, deixando a dele. Era sua vida. Sua própria e intima vida! Eles não tinham o direito de agir como agiam...

No entanto, ele estava em um pesadelo. Não conseguia sair. Era decepcionante que mesmo desacordado ele permanecia assombrado. Era frustrante que seus sonhos se esvaíssem tão facilmente, feito algo lhe escapando por entre os dedos, e seus pesadelos fossem soberbos e resistentes. Imponentes.

Ele se levanta, cruza o corredor até a saída, mas estaca diante das portas, nada mais que vitrines. Lá fora uma multidão de pessoas aguarda para entrar. Arlequim balança a cabeça, sentindo seu corpo começar a refazer o caminho de volta. 

De volta para a sala onde tão constrangedora obra era exibida. Porém, quando ele volta e procura seu assento vê que este não estava mais vazio. Ele não reage, mas senta-se no chão, em um dos degraus e encara com firmeza a tela. Sim, era sua história. Seu filme. Não obstante, ele desejava saber o que aconteceria, qual seria o final de tão hedionda obra. “Eu ainda não sei sobre meus pecados... onde exatamente errei”, refletiu ele, pensando também que a ignorância não seria tão ruim. Há coisas que devem permanecer desconhecidas.

Era o filme de sua vida, mas ele não esperava muito. Aliás, esperava apenas que logo viesse a morrer, assim sendo, ele não teria de carregar o fardo que vinha carregando por tanto tempo.

— Me desculpem se minha vida perturba alguém — ele se viu dizendo em voz baixa. — Ao menos ela serviu de inspiração para um filme que as pessoas gostam.

Ele não esperava que alguém ouvisse, mas olhares se voltaram para ele, o repreendendo. Estava errado. Constrangido por estes mesmos olhares ele se voltou para a tela, onde era exibida uma cena estranha de se ver: sua morte.

Novamente há risos na sala e ele se pergunta, ainda assim, se seus risos de dor no ontem teriam relação com tal momento...

Novamente alguém está rindo do filme ali exibido. A gargalhada ecoa, quase podendo ribombar contra as paredes do escuro salão. Arlequim outra vez percebe olhares, aqueles malditos olhares sobre ele, mas neles não havia a mesma repreensão de antes. Havia horror. Estavam chocados.

Quem ria, quem gargalhava, era o próprio Arlequim.

Felipe R.R. Porto

quarta-feira, 22 de março de 2023

Solidão - Capítulo 1 : Lágrimas De Saudade


Outro crepúsculo se despedira cerca de uma hora atrás. O conhecido véu escuro da noite plena tomara com firmeza seu costumeiro lugar.

Outra vez parte do mundo estava sob seu domínio. As nuvens acima se estendiam em todas as direções, tendo lá permanecido ao logo de todo o dia que findara; um dia borrado por tons escuros – cinzentos e agourentos. Arlequim vira o mesmo céu dias atrás como se feito de rocha, hoje tivera um vislumbre mais específico, concluindo que este lembrava uma fria lasca de mármore, funesta e gélida.

        Estava desta forma já havia dias e Arlequim sabia que aquele clima ainda se estenderia por vários outros. A escuridão, de fato, acabara de cair. No entanto, já havia aqueles que preferiam recolher-se frente à exaustão e frente ao clima.

        Mas havia algo mais, ao menos para o exaurido palhaço, que vira seu dia envolto em um manto persistente de incertezas. De medo. E a noite seguia os mesmos pavorosos passos, enquanto os passos do palhaço o levavam pelos espaços entre trailers e tendas. Espaços agora praticamente desertos, senão por um colega de trabalho ou outro. Alguma fria corrente de vento conseguia serpentear por estes locais vagos, fazendo vibrar lonas ou fazendo tremular as bandeirolas que encimavam as tendas menores e aquela maior, onde os maiores espetáculos ganhavam lugar.

       Aquele lugar, normalmente separado para lazer e momentos de alegria, não era livre do toque da melancolia. Nada era. Ninguém era.

     Não há aqueles sem cicatrizes. Não há aqueles que se achem livres das dores. No entanto, sabe-se haver aqueles cujas feridas parecem recusar-se a se curar, a dor por elas provocada se estendendo sobre e através das paredes do tempo feito implacáveis ervas daninhas.

       Inúmeras vezes se vira prestes a sucumbir e inúmeras vezes ironicamente se vira rindo de si, do quão patético às vezes soara a si mesmo. Rira, mas lágrimas lhe banharam a face. Inúmeras foram as vezes em que desejara gritar consigo mesmo... Há quem afirme sobre o perigo dos inimigos distantes, mas não há pior inimigo do que aquele que habita as profundezas do próprio homem.

       Não há pior inimigo do que si mesmo.

     Fora tolo desde tanto tempo, mas a dor viera. Lancinante. A dor última, quiçá, de uma alma ferida. Assim, essa mesma dor, para esta mesma alma, trouxe lições. Assim surgira o racional medo do amor. Não soava sábio a seus ouvidos amar quando sua alma cruzara, a passos dolentes, a Via Crucis. O amor, então, fora o seu Calvário. Seu Gólgota. E lá ele fora humilhado, ferido, transpassado e morto.

     Estas lágrimas vertidas em silêncio se tornaram máscaras sobre seu rosto; a luz que emite sombras e obstrui a si mesma. Não, não há utilidade no esconder-se de sua dor. Há apenas mais dor. Voraz e avassaladora dor. Assim, lá ele permanece. Ainda de pé, lágrimas lhe escorrendo pelo rosto, mas aprendera que certos atos são tolices. Aprendera que deveria ser quem era, não quem obstruísse esse mesmo ser.

     Foi assim, Arlequim acreditava, que a noite então deu à luz seu filho mais jovem: um sonho. Um sonho de amor, um sonho de saudade – de anseio. Desta forma trata-se de um sonho apenas para os olhos, não para o deleite das mãos. Sendo o que é, é apenas um sonho para se meramente sonhar e jamais para ser vivido. Um sonho para os olhos, apenas para contemplação; o tesouro inalcançável, por isso também, uma vez mais, um sonho para as mãos. Ou melhor, uma ilusão para as mãos.

       Pobre filho da noite. Eis seu sonho de amor... de sua saudade.

    Contudo, esta criança, esse filho da noite, possuía olhos que até então não haviam realmente contemplado a beleza. Assim sendo eram fracos, limitados, para ser maravilharem. A luz gloriosa do sol nascente, então, não veio para este filho. Ele, agora se vê, era cego. A luz, tão bela, estava lá, mas não para olhos feito os dele. Cegos... talvez, de alguma forma, imaturos.

       Ele, no entanto, fora cego por muitos anos, mas não por não poder ver. Era cego por não ser capaz de admirar. Assim como existe a diferença entre o mero ouvir e o precioso escutar.

   Esta criança, esse estranho sonho, era ele mesmo. Ele, apaixonado pela noite, e alimentado pelas poéticas expectativas que nela aprendera a ver com o passar dos anos.

      Sim, uma criança, mas estes mesmos anos que lhe ensinaram o “admirar-se” também lhe mostraram que suas mãos eram velhas, eram calejadas pelo viver. No entanto, ainda que velhas, permaneciam intocadas. Talvez, apenas talvez, uma explicação devesse ser concedida. Entretanto, a única que poderia lhe ser dada estava perdida.

       Mesmo esta se achava perdida.

     Isto tornava suas lágrimas um amargo mistério; mas ele as vertia em silêncio, atrás da cômica máscara que passara a usar. Lágrimas de um anseio apenas sonhado, de uma saudade de algo ainda não experimentado.

Felipe R.R. Porto

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Medo - Capítulo 6 : Lágrimas Da Inexistência

 

Foi ainda com o "bipe" prolongado lhe assombrando a alma que despertou. A face banhada em suor, a respiração ofegante e o coração batendo rápido como jamais havia feito. 

Lá fora, notou quando seus olhos involuntariamente correram para a direção da cortina, o dia clareava. Podia-se ver a claridade mesmo com esta tapando a vista, esta escapando levemente pelos cantos do tecido preto e branco. 

Fora um pesadelo; as imagens horrendas e estranhas das duas entidades, Solidão e Saudade – ele se lembrava – ainda vívidas em sua mente. Não fosse o bastante as figuras agourentas gravadas em seus pensamentos ele também ouvia, em um ir e vir, o fatídico som do aparelho que acompanhava os batimentos cardíacos no angustiante sonho. Mas não eram apenas os “bipes-bipes” que lhe torturavam, mas a última sequência, no qual um dos “bipes” se prolongava como uma trombeta cômica, um silvo irônico ante a morte do palhaço. Estremeceu. 

Nada mais do que um pesadelo, todavia. Era isso, ao menos, que dizia para si. 

Ainda assim havia o medo, qual Arlequim tentou afastar de seu coração. Sentiu frio. Perguntou se haveria distinção entre ele e o palhaço que fingia ser, pois, em certos momentos, um assombrava o outro; talvez ambos vivos, mas talvez ambos fantasmas, drenando um ao outro. E um deles, quem sabe, estaria morrendo e fosse disso que o sonho talvez se tratasse... 

Buscou, ao levantar-se, se esquivar de tais pensamentos, mas era inútil, visto ser possuidor de um coração faminto por respostas. Sua alma agora o assolava com dúvidas. Assim, sabia que não se desvencilharia destas. Como tantas vezes já acontecera, fazendo com que a dúvida se tornasse uma companheira frequente de seus dias. 

Entretanto, todo ser humano possui dúvidas. Arlequim, porém, não poderia dizer se eram severas como as suas, ao mesmo passo que poderiam sim haver dúvidas mais severas que aquelas que lhe açoitavam a consciência. 

Como, todavia, ele gostaria de dançar em tal momento ao invés de fugir do constante medo. Como ele gostaria de simplesmente ser feliz, como quando era criança e apenas desejava os momentos onde poderia correr e brincar; momentos onde as preocupações da alma não o afligiam. Ah, como era doce o sabor das lembranças... como os algodões doces que no próprio circo ele mesmo já provara. Tão doces. Porém, elas, as lembranças, se tornaram pó, areia em sua boca. Apenas serviam agora para lhe dizer que não voltaria, quem sabe, a provar daquela doçura. 

Pobre Arlequim... 

Entretanto, ele conhecia seu estado, sua situação: estava só. 

Mas ainda que só ele persistia contra aquilo que se opunha a ele. Se agarrava firmemente aos dourados pensamentos juvenis; pensamentos de quando se podia rir e brincar durante o dia e outros onde podia sentar-se, lamentar e chorar durante a noite quando já não se podia fazer o que era feito durante o dia, pois as sombras haviam chegado. 

Os tempos de criança são tão incompreendidos, tão doces, mas apenas entendemos a doçura deles quando se percebe o quão amargos podem ser os anos seguintes. Anos que, quando criança, se almeja com ingênua veemência, mas quando chegam a adaptação às vezes vem com relutância. Não por imaturidade, mas por maturidade. Se sempre houvesse maturidade nos devidos momentos a imaturidade seria como sol e neblina em dias frios: um não pode suportar o outro por muito tempo. 

Que anos são estes? 

Anos nos quais a beleza é amplamente procurada, mas o que se encontra são vermes rastejando na imundície de sua vaidosa existência. Doentes. E ali ele também se encontrava. Não, ele não era um verme como eles, mas não deixava de ser um. 

Ali, naquela manhã, as lágrimas fluíram outra vez, mas devido a funesta e triste existência. A dor o feria, o preparava para a morte, para o momento no qual ele esmoreceria e feneceria... o momento no qual ele se tornaria uma lembrança no vazio... 

Ninguém se lembraria dele. Desta forma não haveria quem viesse a derramar lágrimas, não haveria quem pudesse sofrer o luto após sua partida. 

Por que? Porque para tantas ou todas as pessoas, no fim de todas as coisas, ele simplesmente nunca havia existido.

Felipe R.R. Porto


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Medo - Capítulo 5 : O Último Grito Por Ajuda

 

Onde estava? 

Arlequim sentiu os olhos doerem ao abri-los e ver paredes brancas demais e diante destas voltou a fechá-los como forma de protegê-los. Seu nariz se irritou ao sentir que inalava – agora conscientemente – o cheiro familiar de ambiente clinico. Sentiu, devido à leve ardência, que algo estava injetado em sua pele. Seus ouvidos captaram, por último e de forma também consciente, o familiar som dos "bipes-bipes" contínuos... 

Era um leito hospitalar. 

“Mas... como?”, ele se perguntou, os olhos se agitando ainda assustados com o lugar com o qual se deparavam. Iam, freneticamente, da esquerda para a direita e de baixo para cima e, ainda assim, não conseguiam ver tudo. 

Tentou, tentou e tentou, mas não conseguiu nada. 

Tentou, tentou e tentou... até que desistiu. 

E ali permaneceu. 

Ali, viu os dias passarem, depois sentira que estes se tornaram meses. Havia uma enfermeira, mas que morbidamente sempre surgia de rosto encoberto, dela ele via apenas os olhos muito negros. Ela, ao que ele percebia, vinha lhe passar algo no rosto. Não havia espelho para saber do que se tratava...

Estando ali, viu os dias passarem, meses passarem. A enfermeira, um dia viu em suas vestes brancas, se chamava Solidão e ela era, até então, a única o que o acompanhava. Ele tentava lhe falar, mas não havia resposta. Ela era fria, jamais deixando de fazer o que sempre fez. Trazia consigo dois frascos... sempre os mesmos frascos. Um de conteúdo branco e outro de conteúdo negro.

Ele não sabia o que havia exatamente acontecido. Em sua memória não encontrava nada que pudesse lhe ser de alguma utilidade para que obtivesse alguma resposta.

Só, esquecido, abandonado... sem amor, sem calor, sem esperança... nele havia somente a saudade. Saudade do quê? 

Desde então junto à Solidão veio outra figura, a Saudade, e entre si elas conversavam, mas nada que ele pudesse ouvir e nada que elas estivessem dirigindo a ele. O que poderia ser? 

Queria poder perguntar quando sairia dali, pois não precisava estar ali. Queria poder fugir daquele lugar, pois não havia nada de errado com ele... e se havia não lhe tinham contado, pois ao que ele sabia ele era plenamente saudável. 

Ele não podia ir e, pelo que notava, ninguém mais viria. Seria mesmo isso? Mas onde estariam aqueles que prometeram lhe amar? Onde estariam os pais que o geraram e até pouco tempo atrás ainda estavam ao seu lado? E os amigos que o apoiavam e a mulher que lhe prometera amor? Teria ela, principalmente ela, o esquecido? Todos o haviam esquecido? Haviam o abandonado? Deixaram-no para trás? 

Onde estavam as pessoas que o assistiam e o aplaudiam? Não teriam notado sua ausência? Já havia alguém fazendo seu numero já que ele estava como estava? 

Tantas perguntas lhe vinham, mas jamais as respostas. 

Percebeu que sua respiração tornara-se ofegante, seu coração agora galopava como um corcel desesperado sobre colinas selvagens. Os "bipes-bipes" do aparelho estavam também mais rápidos. Uma lágrima, ele pode sentir, desceu-lhe a face direita. 

Ali estavam as enfermeiras, Solidão e Saudade, mas não o notavam? Haviam se esquecido dele? Será que não haviam percebido que ele estava morrendo? Não poderiam ajudá-lo? Para seu desespero e total pânico elas deixaram o alvo quarto. Olhando para os lados, sendo capaz de mover apenas os olhos, ele constatou estar totalmente só. Não havia mais ninguém ali. 

O que vem depois de tais momentos, quando nem mesmo a Solidão ou a Saudade estão presentes? Só havia uma resposta e diante dela ele precisava de ajuda. Mas quem o ajudaria? Onde estaria o médico? Havia algum? 

Talvez ele não chegara até ali para ser curado, afinal. 

— Eu preciso de ajuda — ele balbuciou com dificuldade, como se talvez nunca tivesse aprendido a falar até aquele momento. — Preciso de ajuda! AJUDA!! 

O medo lhe corria pelas veias como um cardume de peixes mortos descendo uma correnteza rubra. Fria. Queria se mover, se levantar, alcançar alguma campainha que pudesse tocar e assim a ajuda chegasse, mas não podia. Estava inerte, senão pelos olhos que marejados se moviam no revisitado frenesi como se o avistar de algo pudesse resolver seu fatal problema. Medo. Como ele o sentia. Talvez fosse este que pesasse cada vez mais sobre seu corpo, impedindo que se levantasse. Talvez fosse o crescente medo que o atasse - feito correntes cuja resistência apenas aumentavam devido à força deste - àquele leito. 

Ali, agora parecia realmente o fim. Não havia ninguém por ele, ninguém que pudesse lhe ajudar. Quis gritar, mas sentiu seu folego minguando dentro de si e de sua boca nenhum som saia. Tentou outra vez mover o corpo, mas ainda que algum sucesso tivesse sido alcançado, não foram nada mais do que movimentos inúteis e que em nada lhe ajudariam. 

“Socorro...” foi seu último pensamento. O último grito por ajuda que fora capaz de emitir, mas ninguém o ouviria. 

Veio o último folego... a última batida. 

Arlequim já não ouvia quando o aparelho que marcava seus batimentos soou o último bipe. A última nota, a qual foi longa e lúgubre. Mórbida.

Felipe R.R. Porto

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Medo - Capítulo 4: O Herege

— A alegria do Natal e a paz de Cristo reine no coração de todos os homens — a voz tinha vindo da televisão e mesmo ele estando ainda vertendo suas emoções os ouvidos de Arlequim captaram a frase, então ele se achou agora se voltando à tela. Alcançou novamente o controle remoto, agora fazendo com que os sons ficassem mais claros, aumentando o volume. Na tela ele via um senhor de aparência dócil e este falava a milhares e milhares de pessoas.

Entretanto, aquele fora o fim da reportagem, felizmente. Não foi capaz de ver do que realmente se tratava - caso fosse algo mais sobre o mencionado Natal -, mas ainda assim Arlequim fora atraído por ela. 

— Como se já não bastassem minhas tristezas... — o jovem disse, em forma de lamento, devolvendo o violino de volta ao estojo, junto com o caderno de páginas agora levemente umedecidas e a caneta mais próxima ainda de seu fim. 

Agora o palhaço descalçava os sapatos enquanto ignorava o mesmo sentimento que lhe viera referente às mãos antes de descalçar as luvas. 

Deitou-se fitando o teto do trailer. A maquiagem – agora um tanto borrada – permanecia em seu rosto, mas ele estava distante naquela noite. Parecia não estar muito interessado em ver quem estava por detrás do pó branco e os lápis negros que lhe delineavam um ou outro detalhe. Para ele não havia diferença. Ele sabia o que havia por detrás da máscara de maquiagem, eram os outros que não. 

Conta-se a história – ele relembrava – de um homem que nasceu cego, mas que queria ver o mundo, pois lhe falavam que era lindo. Sim, ele podia ouvir, mas somente ouvir. Um dia este veio a ver e viu o mundo e chorou, pois não era tão belo como esperava. Ele chorou diante da vaidosa hipocrisia, diante da falsidade do amor criado, não o amor que era genuinamente sentido. Ele chorou devido às tantas máscaras; máscaras para representar o Bem quando se tratava do Mal, para representar a Luz quando se tratava de Sombras. Máscaras de Vida, mas que por trás de si traziam a Morte. O homem lamentou, mas para que não notassem ele mesmo fez para si uma máscara de Alegria, mas por trás desta havia pranto. 

— Lhe falavam que era lindo —, Arlequim repetiu para si mesmo em voz alta. Tantas coisas eram ditas, mas não havia verdade nelas. Diziam haver paz, mas não havia paz. Dizia-se que os tempos estavam melhorando e o ser humano evoluindo... mas ao menos Arlequim não via assim.

Contudo, olhe só, quem afirmava tais coisas era o próprio ser humano. No fim, na conclusão, jamais houve evolução, a não ser na torpeza do ser humano, que agora vê beleza onde antes não via e hoje vê ofensa naquilo que antes tanto defendia. Ou o inverso. Basta ser conveniente. 

Há um nome para isso: hipocrisia. 

A voz do herege ressoava dentro de Arlequim como se sua mente fosse um grandioso e profundo desfiladeiro. Os ecos se repetiam, se repetiam e se repetiam. Porém, em desfiladeiros os ecos felizmente em segundos cessavam. 

 — A paz de Cristo reine no coração de todos os homens... – ele citou para si mesmo agora. Como seria possível tamanho autoritarismo? Para a mente e para o coração de Arlequim a frase dita não se encaixava em seu declamador. Para alguns o tal homem se tratava de um santo sem pecados e um homem infalível. Este era o Papa. O Pai. 

Depois de momentos de profunda angústia, solidão e tristeza, Arlequim agora se encontrava indignado. Seus olhos ainda miravam o teto do trailer, mas era como se pudessem ir além deste. 

“Um santo sem pecados e infalível...”, ele pesou a frase e A Inquisição foi o primeiro evento que lhe veio à mente, anos sombrios nos quais o Catolicismo Apostólico Romano perseguiu e sentenciou à morte muitos inocentes. Haviam palavras de consolo ditas por esse tal Papa, mas palavras que foram ditas do mesmo modo que a serpente falou à mulher no Éden. A mulher a tudo tinha, mas ao ouvir à serpente a tudo perdeu, tendo se afastado tragicamente da Luz. Hoje ele, assim como a serpente, fala aos pobres, mas estes pobres são os degraus da torpe, mas sagrada, catedral construída com indulgências séculos atrás. São pobres, pois ele os fez pobres ou os mantem pobres. Muitos já estavam fadados ao Inferno, mas ao ouvirem aquele herege foram feitos duas vezes mais filhos e filhas do Inferno. Palavras duras, alguns diriam. Jesus foi quem as primeiro disse sobre os hipócritas de seus dias.

Arlequim via o “Vigário de Cristo” diminuindo a tragédia enquanto ela se alastrava como nuvens de uma má tempestade que rápida e inevitavelmente se aproxima – uma tempestade que irá destruir vidas, mas poucos sabem. E os que sabem e falam a verdade são mentirosos. O Herege os ensinou assim. 

Arlequim seria um destes mentirosos. 

Arlequim o via falar de amor, enquanto era o ódio que era semeado cuidadosamente nos corações – “e eis aí”, o jovem ator circense pensou com ironia, “o maldito joio se infiltrando em meio ao trigo.” 

Arlequim o via envenenando almas, enquanto elas criam estar sendo curadas, mas se tratava apenas do torpor do momento. Elas morreriam logo. Pois ele deixará que elas durmam, que elas acreditem na segurança... na paz. 

Arlequim uma vez lera as seguintes palavras do próprio Jesus; 

“Mas se alguém fizer cair no pecado um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar. Ai do mundo, por causa das coisas que fazem cair no pecado. É inevitável que tais coisas aconteçam, mas aí daquele por meio de quem elas acontecem...”(Mateus 18.6-7) 

— Oh, Papa, você foi longe demais — Arlequim disse outra vez em voz alta. — Lamento por sua alma... 

Era lamentável o destino de tal homem, assim como também, por causa dele, era também lamentável o destino daqueles que o seguiam. 

Tido como o senhor da igreja, mas jamais o será. Usa o nome santo de Deus para justificar suas ações torpes, mas essas ações torpes jamais o justificarão diante de Deus. 

Herege. És o Papa... o Pai nesta terra. 

Não, o jovem palhaço sabia, a vontade daquele homem e de tantos outros que vieram não se tratava da boa vontade de Deus, mas dos intentos terríveis de Satanás. 

O coração de Arlequim ardia em profunda mescla de tristeza e revolta. Ele pedia perdão a Deus por tal sentimento. Pedia agora e provavelmente voltaria a fazê-lo, pois falharia outra vez. 

Arlequim não negava já ter visto atos dignos daquele homem, não podia mentir. Porém se uma macieira der, em cada safra, duzentas maças, mas dentre estas apenas dez delas forem comestíveis, esta não se tratará de uma macieira que mereça permanecer dando frutos sendo que faz mais mal do que bem. 

Arranquem-na! Cortem-na e a lancem no fogo! Pois o fogo é seu lugar.

Felipe R.R. Porto

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Medo - Capítulo 3: Lacrima Mosa


 

Deixou as ruelas do parque quando ventos frios demais começaram a soprar. Foi para o pequeno trailer a ele reservado. Era simples e muito pequeno, mas era o bastante para ele. Arlequim jamais reclamou do veículo, não se sentia capaz de fazê-lo. A porta de entrada ficava na lateral direita deste e logo que esta era aberta se dava com uma cama - sobre esta se via uma caixa retangular negra. Para a direita, também no canto direito, havia um armário muito compacto e sobre este uma pequena televisão -  a qual ainda estava ligada desde aquela manhã e ele não se importou em desligar, apenas alcançando um controle remoto e tratando de deixar o volume extremamente baixo, apenas o suficiente para que ele ouvisse caso algo interessante fosse pronunciado. Para a esquerda, onde era a traseira do trailer, estava uma janela de tamanho considerável com uma cortina feita de diversos losangos pretos e brancos. Abaixo desta estava um grande baú onde os pertences- roupas e objetos de uso pessoal- do jovem estavam. 

Entrando, fechou a porta e sentou-se na cama ao lado da caixa. Jogou as quatro pequenas bolas para o lado, apenas para que logo depois as sentisse voltando para seu lado. 

Levou uma mão à outra para começar a remover as luvas e se viu assustado, temendo que ao retirá-las não houvesse nada abaixo delas...  

...apenas o vazio. “Tolice”, pensou. 

Puxou subitamente a luva da mão esquerda e obviamente não encontrou o vazio, mas suas mãos jovens e cansadas, calejadas e levemente suadas ainda que estivesse fazendo frio. 

Com as mãos livres ele parou, não retirando sequer seus sapatos, roupas, chapéu ou maquiagem. Viu-se estendendo suas mãos à caixa ao seu lado. Havia duas presilhas que a mantinham lacrada. Abriu-as com um leve estalido para ter seus olhos em um dos frutos mais preciosos de seu trabalho: um belo violino envernizado reluziu aos seus olhos fascinados. 

Havia o comprado depois de pouco mais de um ano de trabalho com o circo. Havia sido uma compra inesperada aos olhos de alguns, mas muito esperada por ele. 

Ao lado do violino havia um pequeno caderno e uma caneta que ele sabia que não duraria muito. Já havia gasto outro caderno semelhante àquele que agora tinha, mas havia o lançado fora. No entanto, guardaria o novo consigo e faria o mesmo com os que viessem em seguida. Havia feito tal promessa a si mesmo ao se arrepender de ter se desfeito do anterior. 

Tomou a caneta e o pequeno caderno em mãos. 

Respirou. Suspirou. O coração batia forte contra as costelas.

Começou a escrever. Mas não se tratava apenas de escrever. Nunca. Muitos possuíam formas de se livrar de alguns sentimentos e a forma da qual o jovem Arlequim se valia era a escrita somada à sua música... 

No entanto ele se viu riscando a primeira frase escrita. Não lhe era o suficiente. Foi para a linha de baixo e novamente tentou, tal tentativa se baseando apenas na espera das palavras certas. Todavia, elas não vinham. Tentou novamente, desta vez escrevendo mais de uma linha crendo que em algum momento as palavras aleatórias o conduziriam ao ponto onde as palavras que precisavam ser escritas surgiriam e dariam, assim, sentido às primeiras. 

Não conseguiu. 

Angustia. Arlequim sentiu isso dentro de si, sentiu-a se agitar dentro dele, mas não para sair. Ela não queria isto, queria sufocá-lo como em todas as vezes que ele a sentira. Em todas as outras, contudo, ele foi capaz de expulsá-la pondo a maldita no papel, mas hoje falhava. Hoje as palavras o traiam. 

E pouco depois ele chorava. Soluçava sobre as páginas do pequeno caderno, onde gotas salgadas e negras escorreram. Mas não, ninguém saberia disso. E os que sabiam... não se importavam. 

E ele? Ele se importava demais. Sempre. Já ouvira que isto era seu problema, o sentir demais. O sentir muito. Mas, novamente, era quem ele era. 

As lágrimas prosseguiam, mas ele se viu desistindo da escrita e logo lançava o caderno para o lado. Agora recorreria ao violino e neste depositara suas esperanças. Houve receio, houve insegurança. Houve medo, mas para sua surpresa e alivio, aconteceu algo diferente. Ele percebeu que não precisava de palavras naquela noite, precisava apenas das notas. Elas, diferentemente das palavras, não o abandonaram. Não falharam com ele. Não o traíram.

E os fios de crina do arco encontraram-se com as cordas do violino e dali notas surgiram, notas que ele sequer sentiu que precisasse seguir anotando enquanto tocava. Algo lhe dizia que aquela melodia, aquela chorosa composição que lhe acompanhava o pranto, não o deixaria mesmo que quisesse. E se foram vários minutos a tocando. Minutos que ele sabia que a excederiam quando, por fim, a anotasse. Ele apenas seguiu a repetindo várias vezes até sentir que era o bastante, que seu coração já havia vertido tudo o que verteria naquela noite. Até que mesmo as lágrimas que tivesse de derramar fossem totalmente derramadas no embalo da lacrimosa melodia. 

Veio, finalmente, o momento de deixar que o violino voltasse para o conforto do estojo, o arco o acompanhando. Alcançou em seguida o caderno a ali depositou a composição, sequer precisando tornar a ouvir as notas do próprio violino. Já conhecia o instrumento bem o suficiente para que isso não fosse necessário, embora uma ou duas vezes se vira solfejando.  

Apreciava, amava a música, mas queria, assim como tantos que ele admirava, fazer história através desta. Queria primeiro fazer música para si, como o poeta que escrevia para seu próprio alivio. Mas lhe era importante o poder consolar corações, poder motivá-los. Fazer-lhes companhia lhes mostrando que não estão sós - assim como ele sabia que não estava só em sua condição, apenas em sua localização. 

Deveria haver mais alguém como ele. Talvez ali não houvesse, mas deveria haver. Em algum lugar do mundo, ou a algumas milhas de onde ele agora se achava, mas havia. Não havia? 

Ele suspirou, não se esforçando demais em dar uma resposta àquela pergunta. Por fim, no topo das anotações, da partitura improvisada que deitara nas páginas do caderno, ele escreveu o nome da composição - o único que lhe pareceu apropriado a uma obra como aquela: 

Lacrima Mosa.

Felipe R.R. Porto

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Medo - Capítulo 2: Requiem


Todos já haviam se recolhido, mesmo o sol já havia se posto. As sombras dominariam agora até que a próxima manhã chegasse. 

“As sombras dominariam”, ele refletiu. 

Diferente dos demais ele não se recolheu, tendo permanecido no parque, mas não fazendo malabarismos ou quaisquer outros números. Não era mais necessário. 

Havia se sentado sobre um caixote recostado a uma das tantas tendas de vendas (tão comuns em parques como aquele). A vista à sua volta era composta de mais tendas como aquela às suas costas, um solitário e gélido - embora enfeitado - cipreste se erguendo quase orgulhosamente logo ao lado e ao fundo de tudo isso conseguia ver pequenos prédios mais afastados. Todos cobertos pelo manto escuro e espesso que era a noite que se lançava sobre a face do mundo. Imaginou mãos puxando este mesmo manto... uma mortalha. 

“Ou as cortinas puxadas ao final de uma boa peça”, pensou Arlequim com um sorriso que não passava de lábios repuxados. O sorriso se foi logo, porém. “É claro que estou me referindo a uma grande tragédia”, concluiu ele relembrando o que outrora lera. Talvez tivesse sido como fora aquele dia... onde subitamente houve trevas. 

Antes d“aquele dia” não se tratava de uma tragédia, mas veio o momento onde a imundície adentrou o lugar sagrado e, pouco depois, com olhos fechados e pesarosas almas o Homem e a Mulher eram expulsos do sublime jardim pelo seu Senhor. Um mão sacra apontara a saída e nesta eram deixados dois guardiões juntos, cada um, a uma aspada flamejante. Havia lembranças, então, belas lembranças, mas agora contempladas por olhares devorados pela corrupção. 

A Tragédia. 

Era um início, mas também era um fim. Embora não fosse “o fim”. 

E então havia medo... e confusão - confusão esta que Arlequim viu levar alguns a verem um anjo às portas do Inferno e o Diabo nos céus. Entretanto, a pureza ainda sussurra, buscando atrair o ser humano. Ela certamente sabe que o decaído e imundo homem jamais a buscaria. Arlequim mesmo não negava a si tão estarrecedora verdade. Ele jamais o faria. 

“Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo... assim seja”. Ele não sabia onde encontrar esperança a não ser n’Eles. 

Então, a ele a todos os homens só resta clamar para que o mais puro dos nomes lhe conceda alguma luz. E assim, só assim, ele poderá provar de seu sopro de vida, qual é efêmero, curto demais e então pedir que seja levado...  “Ser levado”, meditou ele. Arlequim já o fizera tantas vezes; clamara por luz e a luz vinha, mas era doloroso quando dentro de si ele sentia que ele desvanecia. Então, para não mais provar das dolorosas trevas ele pedia por mais tempo. Não que houvesse luz demais sobre a face da Terra, mas para que buscasse se redimir, para que buscasse clamar e sentir que o fizera suficientemente. Quanto seria este suficiente? Talvez ele soubesse quando fosse o momento e, se dependesse apenas de sua humana vontade, clamaria para que pudesse ser varrido. Levado dali. 

Uma vez proferira palavras que ficaram gravadas em su’alma. Foram simples, mas a simplicidade não fez com que definhassem.  “Me deixe fugir com você”, ele clamara, mas lembrava-se da correção quase imediata que o assaltara. “Não, não fugir... eu regressarei com você, mas não, jamais com o Diabo.” 

“Regressarei”, ele refletiu como se aquela palavra pudesse ser captada, sentida, por algum paladar ou tato misterioso que lhe habitasse a consciência. 

— Regressarei — ele repetiu, agora vocalizando. Nada mais do que um murmúrio, mas que viera trajado de um lamento que ele não intentara. Elevou seus olhos aos céus de sombrio ébano, tão diferentes da alva neve sob seus pés. — Me deixe regressar com você... — ele pediu uma vez mais. 

“Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo... assim seja”, sua mente religiosamente repetiu. 

Em tempos passados já lhe questionaram sobre o porquê de sua melancolia, dizendo, de forma acusadora, que sua Fé deveria livrá-lo de tal sentimento. No entanto, foi exatamente por causa da verdadeira e genuína Fé que alguns sofreram, enquanto havia casos que por causa da gananciosa e hipócrita Fé pessoas fizeram outras sofrerem... 

Entendia que a Fé não o livraria das dores, mas o ajudaria a sobreviver a elas. Tinha ciência que definharia até a morte, plenamente consumido por seus medos e tristezas, caso não soubesse disso. Sim, havia angústia em sua vida, momentos de profundo desespero, mas teria sucumbido se seus olhos estivessem, ao invés de na brilhante estrela, focados nas trevas ao redor desta. 

Ainda fitava os escuros céus, tão diferentes daquilo que notava durante os dias - mesmo os dias onde havia a mais densa nevasca. Havia certo desconforto nisto, mas a noite lhe trazia também bons pensamentos, pois nela ele via as estrelas, estrelas que ele não notaria durante o dia. Estrelas que precisavam das trevas para que pudessem ser vistas. Havia alguma esperança em seu coração. Acreditava que sem as penumbras da vida pudesse não ter esperança alguma. Por isso, cria, prosseguia. 

No coração daquele jovem pulsava a maturidade acompanhada da melancolia. Maturidade, pois ele havia encontrado o que parecia ser a verdade; e melancolia, pois em sua solidão ele era o único, ou um dos poucos, que aparentemente via o que via. 

Havia dias em que ele se questionava se estava sozinho, pois, mesmo não sendo cego, não via nada nem ninguém. Porém, talvez fossem somente seus olhos que não queriam mais ver as coisas fúteis e vazias. Houve momentos onde ele acreditava ter alcançado o ápice de seus dias, onde estes pareciam conduzir a melodia do canto fúnebre de sua alma, dias nos quais ele se perguntava se era realmente o momento ou se deveria ainda dizer algo às pessoas, mas... alguém ouviria o pobre e miserável palhaço e suas tragédias filosóficas internas? Alguém viria a dar importância à espiritualidade de um palhaço que, ao que se sabia entre as pessoas, ganhava a vida fazendo pessoas rirem e gargalharem? Temia que não fosse levado a sério. 

Arlequim gostaria de fazer pessoas sorrirem. Ele possuía um apego especial pelo sorriso, pois a ele esta leve expressão de contentamento era muito mais profunda do que os audíveis risos e gargalhadas. Sorrisos sinceros traziam leveza, conforto... sorrisos sinceros curavam, motivavam... Risos e gargalhadas lhe pareciam tão finitos, mas não os sorrisos... para ele os sorrisos eram ecos que lhe soariam nas salas de sua memória até seu último dia. 

Ele, então, sorriu. Sorriu sozinho na noite mais fria daqueles tempos invernais. O sorriso se foi outra vez. Quem daria importância àquilo? O percebiam além daquilo que interpretava? Quem realmente era para eles?” 

Talvez o fim já tivesse chego e ele fosse um fantasma onde apenas os que o entendiam eram capazes de notá-lo e não somente vê-lo - e a diferença nestes aspectos é gritante. Contudo, se assim fosse, qual era o verdadeiro significado? Sim, deveria haver um propósito. Apesar dos momentos onde se encontrava profundamente deprimido, ele não era tolo o bastante para acreditar que tudo era sem propósito, pois o que ele fazia tinha um propósito e que sentido haveria em um ser sem propósito fazer algo com propósito? “Sim”, ele sempre concluía, “há, mesmo que simples, um propósito”. 

Talvez o fim não houvesse chego para ele, mas para os outros, que haviam morrido, secado por dentro a ponto de serem tão mais frios e vazios. Talvez eles fossem os fantasmas. Talvez, então, fosse por isso que ele tanto se assombrava com aquilo que via. 

Talvez não fosse ele o morto, mas elas, pois ele sentia dor tristezas e alegrias reais e mortos não sentem nada. 

Nada... 

... e tais pessoas assim lhe pareciam: não sentiam nada, imersas em seu eterno e constante repouso, a existência sendo sua constante celebração fúnebre.

Felipe R.R. Porto